Organizando a bagunça interna

novembro 14, 2012

No consultório, atendo muitas crianças e adolescentes. Frequentemente, as mães ficam na sala de espera enquanto a consulta acontece. Ao término da sessão, não raro observo uma cena no sofá da sala de espera: mães arrumando a bolsa, aproveitando os 50 minutos para organizá-la.

Notei três formas básicas de como fazem isso:

1. Organização contida: tudo permanece dentro da bolsa. As coisas são organizadas no espaço interno. Apenas os “lixos” são retirados, em geral papéis que são picados e colocados discretamente num cantinho. Se não estivermos atentos, não perceberemos que se trata de uma arrumação.

2. Organização discreta: parte das coisas é tirada da bolsa, mas com certa discrição. Retiram o estritamente necessário, amassam os papéis que serão jogados fora. Olhando a cena, é perceptível que estão arrumando a bolsa, mas nada que possa incomodar os demais ou expor a dona da bolsa.

3. Organização espalhafatosa: as coisas são literalmente jogadas sobre o sofá. Os papéis vão sendo separados, formando um bolinho de lixo. As mais extremas chegam a virar a bolsa do avesso sobre o lixo para tirar as sujeirinhas que acumulam nos cantos dentro da bolsa. Tudo isso é feito com muito empenho e concentração (e, não raro, o celular, que está preso entre o ombro e a cabeça, para que conversem com as mãos livres). As pessoas ao redor são ignoradas (não por mal, mas porque o foco é outro). Se alguém estiver por perto, olhando ostensivamente, pronto, vira um bate-papo e, num minuto, estão contando a vida e trocando telefones.

Não há qualificações nessas descrições. Não há melhor ou pior, certo ou errado, são maneiras diferentes de organizar a bolsa, e que uso aqui como metáfora para reorganização interna. Algumas pessoas se reorganizam silenciosamente (organização contida), parecendo até que nada está acontecendo. Pensam, refletem, são bastante cautelosas e criteriosas nas mudanças de opinião ou de postura.

Outras pessoas, ao se reorganizarem após uma crise, conversam e desabafam com poucas pessoas que julgam de confiança (organização discreta). Recorrem aos amigos, preocupando-se sempre em não incomodar. Testam novas atitudes e repensam. Mesmo que descartem formas de agir e até mesmo relações que concluam pouco saudáveis, fazem-no de forma discreta.

Há ainda as pessoas que, para se reorganizar, precisam colocar tudo para fora. Praticamente todos ao seu redor sabem que estão em sofrimento. Expõem tudo para que possam olhar, analisar. Olham o que será colocado de volta e o que será descartado. Às vezes aprendem a fazer um “pré-lixo” (deixando separado o que ainda não têm certeza se estão prontas para se desfazer). Aquilo que vai ser jogado fora é feito de forma explícita, e o que vai retornando vai sendo colocado num lugar determinado, para que cada coisa tenha seu lugar.

Em qualquer um dos casos, esse processo é contínuo. A cada tanto tempo, é necessária uma nova reorganização. Separei em três modelos para exemplificar melhor, mas existem inúmeras variações entre eles. Repito que não há certo e errado, não há melhor e pior. O importante é que seja possível uma reorganização que possibilitará um amadurecimento. Num extremo, estariam as pessoas de perfil mais depressivo, com uma reorganização bastante contida. No outro, os mais obsessivos. Para tentar garantir que a arrumação fique bem feita, muitas vezes a fazem de um modo espalhafatoso. Tiram tudo, expõem tudo e, se possível, ao arrumar novamente, colocam tudo em nécessaires separadas.

Fonte: trecho do livro “Mulher sem Script” de Natércia Tiba – Integrare Editora

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Amizade com o tempo

junho 22, 2012

Os gregos, que encontravam explicação para tudo por meio das forças emanadas pelo monte Olimpo, não se contentavam em ter um deus do tempo, tinham logo dois: Chronos e Kairós. Um só deus grego não seria suficiente para explicar a relação do homem com o tempo, tamanha a tensão que existe entre ambos.

A única proeza em que o homem teve sucesso, a respeito do tempo, foi conseguir medi‑lo. Para isso, analisou ciclos, como os movimentos da lua e do sol, observou seu efeito sobre a natureza e então padronizou os tempos, do ano, das estações e dos dias, posteriormente divididos em frações, chamadas, horas, minutos, segundos. Em sua arrogância, o humano acreditou que, ao medir o tempo, o controlaria. Doce ilusão. As medidas só serviram para aumentar a sensação da passagem veloz do tempo, que escorre pelas mãos, como a água que, formada por moléculas, sempre encontra um caminho para seguir seu destino, que é a gravidade. O tempo é assim, líquido, escorre pelas mãos, atraído pela gravidade do destino.

Mas nem tudo está perdido, pois nós, humanos, podemos ser apenas pobres mortais, mas temos uma ferramenta que nos permite controlar, se não o tempo, nossa própria existência. Ela se chama consciência. E nos permite conviver com o tempo a partir de três visões: da física, da metafísica e da ética. Do ponto de vista físico, o tempo pode ser medido; no âmbito da metafísica, o tempo pode ser sentido; e, de acordo com a ética, o tempo deve ser vivido.

 

Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de  Eugenio Mussak – Integrare Editora

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