Fazendo amizade com o tempo. (por Eugenio Mussak)

dezembro 16, 2015

O tempo está à nossa disposição, mas é ele que dispõe de nós. Por isso estabelecer com ele uma relação de paz é um ato de sabedoria. Sentir e medir o tempo são aparentados, pois ambos nos permitem perceber seu andar ininterrupto. Como? Bem, sentir e medir o passar das horas são iniciativas úteis, pois nos ajudam a decidir o que faremos com o tempo de que dispomos. Assim, nossa paz com o tempo será diretamente proporcional à paz que estabelecemos com nossas escolhas e nossas decisões. E estas são pessoais, relativas aos valores de cada um.

 

O cientista inglês Stephen Hawking, que ocupa na Universidade de Cambridge a mesma cadeira que já foi de Isaac Newton, escreveu um livro chamado Uma breve história do tempo. Em dado momento, em meio a intrincados conceitos científicos, ele pondera que o tempo tem de ser analisado a partir de três setas: a seta cosmológica, que explica a expansão do universo, a seta termodinâmica, que explica a modificação constante das coisas, e a seta psicológica. Sim, o físico mais importante da atualidade não consegue analisar os fatos do tempo sem recorrer à psicologia. Os enigmas intrincados da matéria relacionam‑se com os mistérios do tempo desde sempre, mas quando o homem passou a protagonizar essa peça no palco no Universo, seus pensamentos e sentimentos acrescentaram novos ingredientes ao roteiro, às vezes de comédia, às vezes de tragédia.

 

A maior contribuição da física nesse assunto é a ideia da relatividade. As sofisticadas descobertas de Einstein sobre a velocidade da luz nos levaram a abandonar a ideia de tempo único e absoluto. Então “o tempo se tornou um conceito mais pessoal, relativo ao observador que o está medindo”, diz Hawking. Nossa relação com o tempo se faz a partir de nossos valores, opções, decisões e culpas. É o tempo psicológico. Eu dedico mais tempo ao que tem mais valor para mim. O problema é conhecer seus valores.

 

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Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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Viagem: o melhor investimento (por Eugenio Mussak)

julho 13, 2015

Há dois tipos de viagem de que eu gosto: as que eu planejo até nos mínimos detalhes e as que eu faço sem planejar nada. Pode parecer um contrassenso, mas a verdade é que são estilos diferentes de viagem.

É claro que as viagens planejadas são mais confortáveis, têm menos surpresas, mas não podemos esquecer que as surpresas fazem parte; aliás, viajamos exatamente para nos surpreender com o mundo. Atualmente eu prefiro planejar até certo ponto, como definir bem as datas de ir e de voltar, reservar hotéis nos pontos principais etc., mas gosto de deixar espaço para o improviso, para a aventura. O importante é ter uma ideia do que se espera da viagem e estar preparado para improvisar.

Viajar é uma das melhores sensações da vida. O dinheiro aplicado em uma viagem não é um gasto e sim um investimento. Seu retorno vem em forma de cultura, de entendimento, de percepção, de experiência e, principalmente, em forma de vida. Uma viagem não se esgota no retorno. Continua em nossa lembrança em forma de imagens, sons, cheiros, texturas.

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Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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Minhas crises cotidianas… Por Eugenio Mussak

outubro 25, 2013

Crises inesperadas: Situações inesperadas podem acontecer, claro, ainda que muitas delas possam ser evitadas com um pequeno exercício de previsão, mas isso é outra história.

Muitas vezes, uma crise se instala em nossa vida de repente, provocada por forças que não podemos controlar. Atire a primeira pedra quem nunca viveu uma crise financeira, profissional, emocional, ou mesmo de saúde. E levante a mão aquele que não se revoltou com a crise enquanto a vivia, e que não sentiu que ficou melhor depois que ela passou.

A crise exige tudo de nós, libera as forças que estavam adormecidas e nos aprimora imensamente. Uma crise pode tornar a pessoa melhor, acredite. Aliás, saiba que você não será julgado pelas crises que teve – pois elas são inesperadas –, e sim por como você reagiu a elas.

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Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

 

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Quem irradia felicidade tem mais chance de ter alguém ao seu lado. Mas, não pode ser “qualquer” alguém! Por Eugenio Mussak

setembro 13, 2013

 

Certa vez Tom Jobim cantou: “Vou te contar, os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho…”.

Com todo respeito pelo maestro, acho que ele exagerou um pouquinho na última frase. Nela ele condiciona a felicidade a não se estar sozinho, entretanto, a recíproca pode ser igualmente verdadeira, ou seja, uma pessoa que irradia felicidade tem mais chance de ter alguém a seu lado.

Mas, posta esta ressalva, vamos dar um crédito ao Tom e concordar que, quando se tem alguém ao lado, tudo fica mais fácil, mais seguro, mais completo, mais divertido. Só que – e este condicional é importantíssimo – não pode ser qualquer “alguém”, tem de ser um “alguém” a quem se possa, sem medo de errar, chamar de companheiro, ou companheira.

Companheiro é uma palavra que vem do latim cum panis, e refere‑se a alguém com quem dividimos o pão. Companheiro é uma pessoa em quem confiamos o suficiente para nos sentarmos com ela à mesma mesa e compartilharmos uma refeição, lembrando que não é só a comida que nos alimenta, mas também as ideias, os saberes, os valores e os planos. Ter um companheiro significa compartilhar esse conjunto de coisas, tudo o que nutre nosso corpo, nossas emoções, nossos pensamentos e, principalmente, nossos sonhos. E, então, parodiando o maestro: Vou te contar, quando a noite vem nos envolver é muito bom estar ao lado de um companheiro.

Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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Sou mais forte do que pareço! Por Eugenio Mussak

março 13, 2013

Cada pessoa é um adam que pode se tornar He-Man invocando seu poder, mas isso deve ser feito com convicção. O personagem de desenho animado que animou as crianças das décadas de 1980 e de 1990 não levantava a espada e anunciava “Pelos poderes de Grayskull… eu tenho a força!”, a não ser que fosse necessário. Era o perigo que liberava a energia que transformava o fracote no fortão, o medroso no herói.

          Na sociedade atual, podemos dizer que praticamente não corremos perigos físicos, como acontecia em Eternia, o planeta onde viviam He-Man e She-Ra. Em compensação corremos perigos emocionais ainda maiores, pois todos os dias somos assombrados pela possibilidade de fracasso, pelas perdas afetivas, pelos problemas profissionais e financeiros, pelas dúvidas existenciais. E todos os dias temos a chance e a necessidade de acionar nossa força, ainda que, às vezes, algumas pessoas não o façam.

          O destino nos obriga. Ele não pergunta se estamos dispostos: simplesmente apronta das suas. Eu estava em Florianópolis na grande enchente de 1983 e presenciei cenas explícitas de gran- deza humana. No final das contas, aquela situação era um emba- te entre a força dos elementos da natureza e a força da alma das pessoas. Foi quando eu conheci José Carlos, um jovem pai que, ao chegar em casa naquele dia, ela – a casa – não estava mais lá. Havia sido levada pela enxurrada, que por pouco não levara jun- to sua mulher e seus dois filhos pequenos. Por sorte, eles tiveram tempo de sair. Quando lhe perguntei “E agora?”, ele me olhou com gravidade, suspirou e disse “Agora é começar tudo de novo”. E ele recomeçou, persistiu e reconquistou sua casa, aliás, melhor que anterior.

 

          Sim, a necessidade obriga. “Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão”, diz o provérbio que o entendido da alma humana, Guimarães Rosa, usou na epígrafe de seu famoso conto A hora e a vez de Augusto Matraga. A força interior existe, mas é virtual. Não pode ser percebida a não ser quando é solicitada de verdade. E isso pode acontecer por dois motivos: por exigência do destino ou por ingerência da vontade. Ou por ambos. “Ferramenta tens, não procures em vão”, escreveu Fernando Pessoa em um de seus belos poemas que nos colocam em contato conosco mes- mos. “Tenha o coração sensível e use a força da mente”, termina seu verso. Sim, temos a ferramenta em nós, só precisamos usá-la.

 

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Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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Construindo relações sadias… por Eugenio Mussak

janeiro 28, 2013

Ser capaz de construir relações humanas adequadas, que têm o que acrescentar, é uma das qualidades da pessoa estruturada, da personalidade sadia. Mas, se selecionamos nossas companhias pelo tipo de influência que elas exercem sobre nós, então, por que às vezes nos deixamos influenciar negativamente por algumas pessoas? Será que, nesse caso, estamos vivendo alguma fase autodestrutiva?

            Sim, existe essa possibilidade, mas o mais provável é que quem se deixa influenciar negativamente ainda não tenha aprendido a lidar com as relações, a começar pela relação consigo próprio. Saber o que é bom para si mesmo e ser fiel a seus valores e a seus desejos requer uma dose de maturidade que demanda tempo, estudo, leitura, exemplo, lucidez, amorosidade.

            Ser maduro significa permitir que as influências, agradáveis ou não, nos ajudem a construir conceitos, conhecimentos e percepções que serão benéficos na medida em que nos ajudam a pensar com qualidade. Ser maduro significa assumir a autonomia por seus sentimentos sem transferir para os demais a responsabilidade pela consequência de suas ações e por sua eventual infelicidade. Na maturidade ganhamos a chance de sermos influenciados de maneira positiva porque aprendemos a ler os textos escritos pela vida, o que é uma conquista e tanto, por isso mesmo tão desejada e tão difícil de ser alcançada.

 

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Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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A morte em minha Vida

novembro 2, 2012

– Você está com medo? – perguntou a jovem Caroline à sua mãe em seu leito de morte.

– Não, estou curiosa – respondeu Daisy Fuller, que então sorriu e, como que para fazer as pazes com a vida, começou a contar à filha um segredo do passado: sua relação com um tal Benjamin Button, um homem que nasceu velho e foi rejuvenescendo com o tempo até morrer como um feto. O relato era um desabafo da mãe que, ao contar, buscava a paz. E Caroline termina por descobrir que o fantástico personagem era seu próprio pai.

A passagem mencionada foi retirada de um conto do escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, publicado em 1921, e que em 2008 se tornou filme, dirigido por David Fincher e interpretado por Brad Pitt e Cate Blanchet. Conta a vida de um homem que tem uma trajetória totalmente oposta à natureza humana, pois, em vez de envelhecer, ele rejuvenesce. Quando escreveu esse bizarro conto, Fitzgerald talvez estivesse angustiado com sua própria realidade, e quis subverter a maior das angústias humanas: a percepção do envelhecimento e a certeza de seu epílogo, a morte.

Se pudéssemos preferiríamos evitar essa sequência natural. Se nos fosse dado escolher preferiríamos ver nosso corpo melhorar com o tempo, e não deteriorar-se inexoravelmente como um prenúncio do fim. Ah, se tivéssemos esse poder… Como não o temos só nos resta a imaginação. A literatura, que aceita todas as ideias, e o cinema, que as transforma em imagens, conseguiram inverter a lógica cruel da natureza, sim, mas não negaram o epílogo, que é, pretensamente, o fim de uma vida.

Benjamin Button não é Connor MacLeod, o Highlander, o imortal guerreiro escocês nascido no século XVI. Benjamin vive o tempo de uma vida, e mostra que ainda que tentemos – e até certo ponto consigamos – segurar o tempo, não teremos como vencer a morte. A anciã Daisy conhece essa verdade e lida com ela com a sabedoria de quem viveu intensamente. Por isso não teme, apenas está curiosa.

O curioso caso de Benjamin Button não foi a primeira obra sobre a evolução da vida e a angústia da morte, nem será a última. Este é um tema campeão de frequência na literatura universal, empatando, talvez, com o amor. E ambos estão comumente ligados, como em um Romeu e Julieta em distintas versões.

 

É possível que amemos tanto a vida porque temamos tanto a morte. Mas será esse nosso destino? Ver a vida como um prenúncio da morte e, por isso, sofrer? Devemos então evitar a vida para ter a ilusão de não morrer, como alguém que não quer um cãozinho porque sabe que vai sofrer quanto ele falecer? Não, o mistério da morte não é maior do que o mistério da vida, pois uma categoria pertence à outra. Perceba que viver pressupõe morrer, e morrer significa ter vivido. São indissociáveis. Estamos diante de um mistério único que, por escapar à nossa compreensão e ao nosso controle, nos angustia e infelicita.

Certo esteve Epicuro ao dizer que não temia a morte pelo simples fato de que jamais a encontraria, pois enquanto ele estivesse vivo a morte não estaria presente, e quando ela aqui estivesse ele não estaria mais. O argumento do filósofo tem uma lógica perfeita, o problema é que nós não encaramos a morte com a lógica, e sim com a emoção.

Como seres pensantes que somos, tentamos racionalizar repetindo máximas comuns (que no fim não consolam), como: “Para morrer basta estar vivo” ou “Começamos a morrer quando nascemos”. São frases epicuristas, todas encerram uma verdade, só que, quando o assunto é a morte preferiríamos a mentira, a ilusão da imortalidade, o engano de que só existe vida.

“Eu não quero ser imortal por minha obra. Quero ser imortal não morrendo”, desabafou Woody Allen, em um de seus momentos geniais. Lamento, Woody, mas não será possível. O que nos resta é viver como se não fôssemos morrer, pensando e glorificando o milagre da vida. Caso contrário, morreremos antes de morrer, como explicou Freud em seu O malestar na civilização, em que coloca a perspectiva da morte como uma das principais causas da infelicidade humana. Morrer antes de morrer significa não viver, apesar de estar vivo.

A lógica de Epicuro, a ciência de Freud, o humor de Woody Allen: estão todos certos. Errados estamos nós que sofremos pelo que não controlamos, por estarmos acostumados a pensar que somos deuses, que a razão nos fornece o controle, que a vontade é infinita. De repente descobrimos nossas limitações e nos desesperamos. Eu e você morreremos, sim, e isto está certo. O errado é morrer antes de morrer, é não encarar a vida com humor e gratidão, é perder a oportunidade de deixar este mundo melhor com a própria presença.

Expirando em seu leito, o Imperador Augusto, por exemplo, pediu um espelho para ajeitar as madeixas e disse aos que o amparavam: “Se vocês gostaram da encenação, aplaudam, para que eu possa sair de cena feliz”. Certo o romano. Morrer é sair de cena, e só nos resta aceitar que a peça terá um fim e que devemos interpretar nosso papel de viventes como virtuoses deste teatro fantástico.

 

O segredo para mitigar o sofrimento imputado pela perspectiva da morte está em se acreditar em algo, pois o que nos mortifica é a dúvida. O homem é feito de razão, emoção e crença, e esta se constrói a partir da matéria que compõe as duas primeiras. Crenças são propriedades privadas, são criadas a partir de valores e desejos, existem para tornar nossa vida melhor e só podem ser questionadas por quem as possui.

Epicuro, por exemplo, antecipou a teoria atômica dizendo que tudo é formado por minúsculas partículas em movimento, e acreditava que isso valia para nosso corpo e também para nossa alma. Dizia que o homem e sua alma nada mais são do que matéria em movimento, e que quando esse movimento fosse interrompido não restaria mais nada, seria nosso fim. Esta era sua crença e sua convicção, o que lhe deu tranquilidade até para brincar com esse destino.

Já para os budistas a morte é uma ilusão, pois nada morre de verdade, muito menos a alma, nossa verdadeira essência. O que importa é alcançar o nirvana, o paraíso. Mas, cuidado, para alcançar o verdadeiro nirvana é preciso estar iluminado e, para isso, precisamos conquistar o primeiro nirvana, o que existe enquanto ainda estamos neste mundo. Este seria um estado psicológico elevado, amoroso e sem ansiedade, o que só pode ser alcançado com desapego e meditação. Em outras palavras, para alcançar o nirvana do céu e se tornar eterno, o homem precisa construir seu próprio nirvana na Terra, a partir de sua decisão e de suas atitudes.

Aparentemente opostos, os pensamentos epicurista e budista têm algo em comum. Ambos creditam à vida como a conhecemos todo o mérito. Para o epicurismo esta é a única vida, portanto precisa ser vivida plenamente; para o budismo o nirvana final, espiritual, só será alcançado através do nirvana terrestre, psicológico. Ambas as teorias propõem que se dê valor à vida, procurando fazer o bem e transformando-a em algo que valeu a pena.

Já que não podemos fingir que a morte não existe só nos resta criar a crença mais confortável, e isso varia imensamente entre as pessoas. A morte é um mistério, mas a vida também é. Só que temos a ilusão de entender a vida porque ela pode ser percebida pelos órgãos dos sentidos. Medimos, pesamos, tocamos a vida. A morte não, ela é metafísica, misteriosa, está além de qualquer interpretação lógica. Sabemos o que é o fim da vida, mas não sabemos o que é a morte.

Como não sabemos, só nos resta acreditar. E crença é imaginação, não certeza, mas seu poder é irrefutável, pois é capaz de usar os pensamentos para acalmar os sentimentos. No fim é isso que importa, pensar e sentir para poder viver. Há apenas dois modos de abordar a morte enquanto existe vida: ignorá-la ou pensá-la. A primeira de nada adianta enquanto a segunda ao menos traz mais cartas para o jogo da vida criando novas perspectivas.

 

No fundo, o que assusta na morte são três fatores: o desconhecido, que é sempre amedrontador; a resistência a abandonar a vida, o que é próprio dos instintos; e, digamos, a passagem, que pode estar carregada de sofrimento. Como diz um amigo meu, com seu humor peculiar: “Acredito que a vida e a morte sejam, ambas, boas. O problema é a transição”.

Estamos, sim, acostumados com a ideia da morte, o que provavelmente nunca nos acostumaremos é com a presença da morte em nossa vida. A morte é algo genérico, impessoal, é um dos fatos da humanidade, aquela multidão à qual, por acaso, pertencemos. Aceitamos a ideia da morte, pois somos racionais, mas reagimos fortemente a ela em duas circunstâncias: quando é prematura ou quando é próxima.

Não gostamos de saber que gente jovem morre, não parece natural. Há um quê de injustiça nos soldados que não voltam da guerra, nos rapazes e moças que se misturam às ferragens de seus carros nas noites de final de semana, nas crianças com leucemia nos hospitais ou nas crianças com fome nos países miseráveis. Ninguém deveria morrer sem ter tido a chance de viver bastante, pensamos.

Também não gostamos da morte por perto, ceifando alguns dos nossos, levando nossos avós, convocando nossos pais. É quando a morte é má de verdade, porque nos priva de nossos entes queridos e porque se faz lembrar, se mostra com força e faz questão de deixar claro que vai voltar, é apenas uma questão de tempo.

Pelo menos a maioria de nós tem motivos para se alegrar por ter vivido. Seja qual for o mistério, a aventura de viver é muito boa. Apesar dos percalços, claro, porque nem tudo são flores, mas aprendemos a lidar com eles. Não é possível não conhecer o sofrimento, ele pertence à nossa condição de viventes. E entre eles, às vezes camuflada pelo cotidiano, está a morte, espreitando.

A fé, a psicologia, a filosofia, a literatura, o misticismo, todos são pródigos em abordar o tema da morte, mas nunca nenhum desses construtores do pensamento humano teve coragem para negar dois fatos: que todos teremos de lidar com a morte, nossa e de outros; e que nós sofreremos com isso.

Provavelmente não seria inteligente não morrer, a vida eterna seria muito cansativa. Mas, com certeza, não é inteligente morrer antes de morrer. Por isso, um texto sobre a morte é inócuo, a não ser que seja uma conclamação à vida. Viver de verdade é a única garantia de, quando chegar a hora, tenhamos mais curiosidade que medo, como aconteceu com Daisy Fuller.

 

Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto” de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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Não quero ser uma cópia!

setembro 14, 2012

Afinal, de onde surgem os estereótipos? Eles são, necessariamente, ruins? Como fazer para evitar que os estereótipos se transformem em caricaturas que enquadram as pessoas e as condenam a viver um papel que não escolheram e que sequer aprovam? Como alguém pode manter a identidade e ser fiel às suas convicções e valores em uma sociedade que rotula as pessoas? Perguntas que incomodam, principalmente porque não têm respostas muito convincentes.

O médico francês Jacques Lacan, que passou da neurologia para a psiquiatria, e desta para a psicanálise, à qual acrescentou os saberes da linguística e da antropologia estrutural, apresentou conceitos que podem nos ajudar a entender um pouco o mistério dos estereótipos. Por exemplo: “Eu sou o que vejo refletido sobre mim nos olhos dos outros”. Ou ainda: “Com frequência, os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam”.

Pois é, parece que nós, humanos, fazemos a representação da realidade por meio da identidade com o grupo a que pertencemos. Realmente, não há como negar que o ser humano é um animal gregário, que depende do grupo para sobreviver física e emocionalmente. Quanto a isso, não resta dúvida. Como também não se pode discutir que os traços culturais servem para criar elementos de distinção grupal, e que eles conferem sensação de conforto e segurança.

Então está explicado porque criamos grupos e classificamos as pessoas, mas – sempre tem um mas – daí a aceitar que as pessoas sejam carimbadas e recebam atributos artificiais e se conformem com a situação, há uma imensa distância. Por isso eu gostei muito daquela propaganda na TV que propõe às pessoas uma reflexão, desafiando “Está na hora de você rever seus conceitos”. E faz a incômoda provocação depois de mostrar algumas cenas em que pessoas reagem mal a determinadas situações, como uma mulher branca casada com um negro, um homem mais velho com uma mulher mais nova, ou o contrário. Em um dos filmes, em um hall de entrada de um edifício de luxo, uma madame recomenda a outra mulher, vestida de maneira simples, que suba pelo elevador de serviço, para depois descobrir que se trata da nova moradora que acabara de comprar o apartamento de cobertura. Realmente, está na hora de rever os conceitos, porque quando eles são formatados por antecipação, são, na verdade, preconceitos.

Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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O companheiro e a vida

julho 29, 2011

Certa vez Tom Jobim cantou: “Vou te contar, os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho…”.

Com todo respeito pelo maestro, acho que ele exagerou um pouquinho na última frase. Nela ele condiciona a felicidade a não se estar sozinho, entretanto, a recíproca pode ser igualmente verdadeira, ou seja, uma pessoa que irradia felicidade tem mais chance de ter alguém a seu lado.

Mas, posta esta ressalva, vamos dar um crédito ao Tom e concordar que, quando se tem alguém ao lado, tudo fica mais fácil, mais seguro, mais completo, mais divertido. Só que – e este condicional é importantíssimo – não pode ser qualquer “alguém”, tem de ser um “alguém” a quem se possa, sem medo de errar, chamar de companheiro, ou companheira.

Aliás, este assunto também foi tema da mitologia e da poesia, ou de ambas ao mesmo tempo. Uma das mais belas abordagens é aquela em que um anjo pergunta a Deus por que Ele havia criado os Homens com “aquele defeito”.

– Que defeito? – perguntou o criador, com brandura.

– Bem – disse o anjo –, eu reparei que as pessoas só têm uma asa, e não duas como nós, e sabemos que são necessárias duas para voar. Então parece que eles nasceram defeituosos.

– Acontece, querido anjo – explicou Deus com um sorriso compreensivo –, que cada homem e cada mulher têm, sim, duas asas, só que uma está consigo e a outra está em outra pessoa. Eu os fiz assim para que eles aprendessem a voar em pares e, assim, conseguissem chegar mais alto e também para que conhecessem os verdadeiros valores divinos, como o amor, o sonho e a felicidade. Além disso – continuou –, dessa maneira eles também aprenderão a respeitar e a cuidar uns dos outros. Qualquer pessoa que magoe outra poderá machucar sua outra asa, e assim ficará impedido de voar. Só pelo amor, nunca pelo ódio, se aprenderá a voar pela vida, aproveitando toda a maravilha que ela tem para oferecer.

 

 

Fonte: Trecho do livro “Preciso dizer o que sinto, de Eugênio Mussak – Integrare Editora

 

 

 


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