Um encontro no espelho (por Natércia Tiba)

novembro 27, 2015

O que faço eu com essa energia circulando

dentro de mim?

Energia de vida, ansiedade.

Um misto de euforia e angústia,

Uma inquietação sem fim.

Uma energia intensa,

Parece que sou capaz de mover montanhas

Mas se esvai com facilidade

E logo me sinto cansada, exausta.

Quando o cansaço me invade,

Sinto-me uma estranha.

Parece que a mulher que tenho dentro de mim

Não combina com a que vejo diariamente no espelho.

Em alguns momentos prefiro a que sinto,

Em outros, sou mais a que vejo.

Minha energia é às avessas,

Acordo cansada,

Em geral não lembro do que sonho,

Devo travar lutas homéricas comigo mesma.

Acordo como quem acaba de sair de uma batalha.

Depois que me levanto, fico horas sem me reencontrar

São pessoas, demandas, tarefas, responsabilidades,

A vida que corre e nos apressa.

Sem querer me encontro num espelho de elevador.

Ufa! Ainda estou inteira.

Orgulho-me da minha força e

me sinto novamente com vigor.

Mas agora não quero batalhas, quero…

O que quero eu?

Sabe que nem sei mais!

Acho que me perdi.

Será que fiquei ali, presa no espelho?

Ou será que me escondi?

Quero sair, ver vitrines…

Ah… Cansei só de pensar.

Quero ver gente, encontrar amigas…

Ai que preguiça de papear.

Vou me aquietar, ler, ouvir música,

Quem sabe até mesmo rezar.

Já estou entediada e ainda nem consegui me sentar.

Onde é o meu lugar?

Do carrinho de supermercado

Ao sucesso profissional.

Onde devo estar?

Percebo então que na verdade,

Não estou num só lugar,

Estou em todos ao mesmo tempo,

Quem consegue me achar?

Sobrevoo a minha vida, pouso onde precisar.

O importante é que eu não me esqueça

Que há sempre paisagem a admirar,

Que sempre tenho onde pousar e

Pessoas amadas pra abraçar.

Há sofrimentos também,

Mas nada que eu não possa suportar,

Com essa energia toda,

Nem um furacão é capaz de me derrubar.

A única com força suficiente pra me esgotar

Sou eu mesma, quando me torno incapaz

de me olhar.

 

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Fonte: livro “Mulher Sem Script”, de Natércia Tiba. Integrare Editora

 

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A importância de dar ouvidos aos nossos “barulhos” interiores. (por Natércia Tiba)

maio 15, 2015

Quando não ouvimos nossos próprios barulhos, o corpo se encarrega de manifestá-los e pode fazê-lo das formas mais estranhas, desde sintomas físicos até tiques nervosos. É a somatização aparecendo como um grito de socorro e nos alertando para o fato de que não temos nos ouvido o mínimo necessário para cuidar de nós mesmos.

Pode acontecer também de experimentarmos um prazer enorme ao ouvir nossos próprios barulhos, sejam eles batuques, zunidos, chiados, gritos ou sussurros.

O importante é saber da importância desse sentir, de se ouvir, olhar para dentro e se apropriar das sensações. Alguns podem ter sido construídos pelas nossas vivências, outros podem ser “sons congênitos”, que nasceram conosco, outros ainda podem ser apenas ecos de pessoas amadas, de relações importantes, pessoas que já se foram.

O mundo pós-moderno tem muitos encantamentos: a internet, as redes sociais, a facilidade para ter contato e obter informações. Vejo essas conquistas com bons olhos porque acho que o bom uso disso tudo nos beneficia muito, mas precisamos estar atentos (por nós e principalmente por nossos filhos), para que esse mundo não se torne uma grande armadilha, que abre nossos órgãos do sentido para o mundo, mas nos ensurdece de nós mesmos.

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Fonte: livro “Mulher sem Script”, de Natércia Tiba. Integrare Editora

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Desabafo de mãe! Por Natércia Tiba

maio 10, 2013

 

Nos atendimentos familiares, um dos pontos mais importantes tem sido mostrar aos filhos que os pais são humanos, erram, ficam nervosos, sobrecarregados e explodem também. Parece que a maioria dos filhos de hoje precisa de um wake up call: “Ei, tem alguém aqui! Eu, sua mãe (ou pai), existo!”

            Os filhos não são também responsáveis pelos pais que somos? Claro que sim! O nível de responsabilidade é muito diferente. Nós apresentamos o mundo aos filhos, passamos a eles os valores básicos. Muitas vezes cobramos atitudes que esquecemos que eles não nascem sabendo, que somos nós que ensinamos… mas chega um momento em que precisamos cobrar deles também. Cobrar na medida do que eles podem oferecer, cobrar pelas responsabilidades que são capazes de assumir.

          Há algo que desde o começo precisamos ensinar e cobrar: os filhos precisam ver que numa relação há sempre alguém do outro lado. Alguém que durante muitos e muitos anos costumamos ser nós, os pais (e irmãos e também os avós).

            Devemos sim oferecer a eles o que precisam para se desenvolver, mas ao mesmo tempo precisam abrir mão do que querem por algo maior, pelos relacionamentos, pelo bem-estar familiar, pelo bem-estar dos pais.

          Os pais aprendem a ser pais e os filhos aprendem a ser filhos, mas antes de tudo somos humanos, e como tal nos relacionamos, nada somos sem o outro. O eu que atropela o nós pode se sentir bem em curto prazo, mas, na vida, o conforto, o amor, o cuidado e um enorme prazer residem no estar-com-o-outro e não com outro que nos serve, mas com outro que existe para nós com a mesma importância com que existimos para ele. Reciprocidade faz parte da educação e é necessária para o bem-estar individual, familiar e social.

 

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Fonte: livro “Mulher sem Script”, de Natércia Tiba – Integrare Editora

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Cuide de você!

fevereiro 25, 2013

O mundo pós-moderno tem muitos encantamentos: a internet, as redes sociais, a facilidade para ter contato e obter informações. Vejo essas conquistas com bons olhos porque acho que o bom uso disso tudo nos beneficia muito, mas precisamos estar atentos (por nós e principalmente por nossos filhos), para que esse mundo não se torne uma grande armadilha, que abre nossos órgãos do sentido para o mundo, mas nos ensurdece de nós mesmos.

            Mas como poderemos saber de nós se não pararmos para nos conhecer, nos ouvir e nos apropriar de nosso universo interno?           

            Para isso, o “nada” pode ser um grande aliado, um facilitador. Pode não parecer muito tentador, mas não tenho dúvidas do quão enriquecedor pode ser. Quando convivermos melhor com ele, talvez possamos também lidar de modo mais tranquilo com nossas emoções, sem precisar descobrir a razão por que amamos tal pessoa e não outra, por que nos sentimos bem ao ouvir o som do mar, por que nos sentimos tristes de vez em quando, por que nos emocionamos com uma música ou diante de um jardim florido. Poderemos sentir e ponto, sem entrar na espiral de hipóteses que nos enlouquecem e nos afastam de nós  mesmos.

 

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Fonte: livro “Mulher sem Script”, de Natércia Tiba – Integrare Editora

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Organizando a bagunça interna

novembro 14, 2012

No consultório, atendo muitas crianças e adolescentes. Frequentemente, as mães ficam na sala de espera enquanto a consulta acontece. Ao término da sessão, não raro observo uma cena no sofá da sala de espera: mães arrumando a bolsa, aproveitando os 50 minutos para organizá-la.

Notei três formas básicas de como fazem isso:

1. Organização contida: tudo permanece dentro da bolsa. As coisas são organizadas no espaço interno. Apenas os “lixos” são retirados, em geral papéis que são picados e colocados discretamente num cantinho. Se não estivermos atentos, não perceberemos que se trata de uma arrumação.

2. Organização discreta: parte das coisas é tirada da bolsa, mas com certa discrição. Retiram o estritamente necessário, amassam os papéis que serão jogados fora. Olhando a cena, é perceptível que estão arrumando a bolsa, mas nada que possa incomodar os demais ou expor a dona da bolsa.

3. Organização espalhafatosa: as coisas são literalmente jogadas sobre o sofá. Os papéis vão sendo separados, formando um bolinho de lixo. As mais extremas chegam a virar a bolsa do avesso sobre o lixo para tirar as sujeirinhas que acumulam nos cantos dentro da bolsa. Tudo isso é feito com muito empenho e concentração (e, não raro, o celular, que está preso entre o ombro e a cabeça, para que conversem com as mãos livres). As pessoas ao redor são ignoradas (não por mal, mas porque o foco é outro). Se alguém estiver por perto, olhando ostensivamente, pronto, vira um bate-papo e, num minuto, estão contando a vida e trocando telefones.

Não há qualificações nessas descrições. Não há melhor ou pior, certo ou errado, são maneiras diferentes de organizar a bolsa, e que uso aqui como metáfora para reorganização interna. Algumas pessoas se reorganizam silenciosamente (organização contida), parecendo até que nada está acontecendo. Pensam, refletem, são bastante cautelosas e criteriosas nas mudanças de opinião ou de postura.

Outras pessoas, ao se reorganizarem após uma crise, conversam e desabafam com poucas pessoas que julgam de confiança (organização discreta). Recorrem aos amigos, preocupando-se sempre em não incomodar. Testam novas atitudes e repensam. Mesmo que descartem formas de agir e até mesmo relações que concluam pouco saudáveis, fazem-no de forma discreta.

Há ainda as pessoas que, para se reorganizar, precisam colocar tudo para fora. Praticamente todos ao seu redor sabem que estão em sofrimento. Expõem tudo para que possam olhar, analisar. Olham o que será colocado de volta e o que será descartado. Às vezes aprendem a fazer um “pré-lixo” (deixando separado o que ainda não têm certeza se estão prontas para se desfazer). Aquilo que vai ser jogado fora é feito de forma explícita, e o que vai retornando vai sendo colocado num lugar determinado, para que cada coisa tenha seu lugar.

Em qualquer um dos casos, esse processo é contínuo. A cada tanto tempo, é necessária uma nova reorganização. Separei em três modelos para exemplificar melhor, mas existem inúmeras variações entre eles. Repito que não há certo e errado, não há melhor e pior. O importante é que seja possível uma reorganização que possibilitará um amadurecimento. Num extremo, estariam as pessoas de perfil mais depressivo, com uma reorganização bastante contida. No outro, os mais obsessivos. Para tentar garantir que a arrumação fique bem feita, muitas vezes a fazem de um modo espalhafatoso. Tiram tudo, expõem tudo e, se possível, ao arrumar novamente, colocam tudo em nécessaires separadas.

Fonte: trecho do livro “Mulher sem Script” de Natércia Tiba – Integrare Editora

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Organizando a bagunça

setembro 7, 2012

Cada pessoa é única. Cada ser humano é composto de um conjunto de características que compõem sua personalidade. Elas não são fixas e determinantes, são plásticas e são como um pano de fundo para o nosso desenvolvimento, para a forma como vemos o mundo, como registramos os acontecimentos e o significado que damos às coisas.

Quanto mais estressados, mais essas características ficam claras. Quanto mais tranquilos estamos, mais elas se amenizam. Conforme nos apropriamos de nós mesmos e desenvolvemos nosso autoconhecimento, a intensidade dessas características passa a funcionar como termômetro de estresse e ansiedade.

Esses estereótipos nos ajudam a entender determinados funcionamentos, certas características, e a que ponto elas nos escravizam se perdermos o controle. Uma pessoa que tenha consciência de que tende a ser deprimida, por exemplo, poderá ter uma qualidade de vida melhor se reagir à depressão do que se acabar entregue a ela.

O autoconhecimento não ocorre por acaso, mas também não acredito que isso só seja possível a partir de ajuda profissional (psicoterapia). Creio que há certo nível de profundidade de autoconhecimento que realmente precise de um processo psicoterápico, mas ele pode começar com um olhar diferenciado para si, para os relacionamentos e para o contexto em que se está inserido.

Também não podemos ser onipotentes a ponto de achar que seremos capazes de neutralizar o ambiente. A vida não pode ser assim controlada e muito menos tão previsível. Podemos procurar amenizar as circunstâncias que geram dor intensa. Há um nível de sofrimento que se torna tão insuportável, que o corpo pede socorro, e sintomas começam a surgir. Quando a própria pessoa não consegue diminuir o sofrimento de forma satisfatória, deve procurar ajuda em pessoas próximas ou com um profissional (psicólogo ou psiquiatra, nesse caso).

Mesmo assim, nós, psicoterapeutas, muitas vezes, ficamos impotentes diante de determinadas situações.

Fonte: livro “Mulher sem Script”, de Natércia Tiba – Integrare Editora

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Desabafo de mãe

agosto 8, 2012

Cérebro de mãe é uma loucura, funciona 24 horas por dia, non-stop. Se fosse possível ampliar o som de dentro da nossa cabeça, seria um barulho ensurdecedor, montes de vozes ao mesmo tempo, falando milhões de coisas diferentes. Voz post-it, voz ranzinza, voz saco cheio, voz amorosa, voz culpada, voz explosiva, voz que sussurra…

Vamos ficando atordoadas, começamos 500 coisas e ficam todas inacabadas. Onde foi parar o celular? No banheiro. E a bolsa? Em algum canto da casa. A chave do carro? Essa tem um poder de desaparecimento sem igual. Na hora de sair de casa, é sempre aquela correria. Quando o elevador chega, um dos filhos… “precisa ir ao banheiro”.

Essa é a minha rotina de mãe e sei que de tantas outras mulheres. Amigas que desabafam! Mães que chegam exauridas ao consultório! Questionam-se: “Sou eu que não dou conta?” Não! Não é você! Somos todas nós! Nossas avós davam conta? Sim, mas acho uma comparação sem sentido, dado o contexto, o estilo de vida, as exigências do dia a dia. Nossas mães davam conta? Médio. Cumpriam o papel, mas já ficavam exaustas. Nós damos conta? Se quisermos fazer tudo sozinhas, definitivamente não.

A psicologia vem se desenvolvendo e nas últimas décadas muito se aprendeu sobre as crianças, seu desenvolvimento, a importância da autoestima, o que os traumatiza ou não, o que os sobrecarrega ou não. Mas e a psicologia dos pais? Não falo do papel que devemos desempenhar como pais, mas de nós mesmos, como manter nossa autoestima, como nos preservar, como sobreviver.

Sinto que foi criada uma grande armadilha.

Fonte: livro “Mulher sem Script”, de Natércia Tiba – Integrare Editora

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