Uma inspiração de natal (por Natércia Tiba)

dezembro 25, 2015

Dezembro costuma ser um mês tumultuado. Final de ano, correria, trânsito, mas há algo que deixa o nosso andar pela cidade mais agradável: os enfeites e luzes de natal pela cidade. É um bom exercício olhar para a beleza dos enfeites em vez de nos irritarmos com o trânsito. Muitas vezes são as crianças que nos alertam. Estamos tão estressados pelo excesso de veículos e cansaço, que a paisagem passa batida.

 

Recebi um alerta de um filho. Com os olhos brilhando diante uma árvore gigante, ele comentou: “Adoro ver a cidade toda enfeitada de natal, essas luzinhas“ e soltou um delicioso suspiro. Uma respiração funda de admiração que temo irá perder com o passar dos anos.

 

Esse comentário suscitou em mim uma viagem nostálgica de segundos. Música tocando, luzes piscando, cheiro do pinheiro misturado aos perfumes de todos os convidados distintamente trajados para a ocasião, a véspera do Natal.

 

Natal é uma data que me fascina. Lembro-me de montar a árvore com os meus pais, ao som de um disco de vinil. O mesmo que depois tocava a noite toda da véspera de Natal. Tudo muito bonito e caprichado, decorado pelas mãos de artista da minha mãe e fotografado pelo olhar nipônico do meu pai. Hoje, as fotos preenchem os detalhes esquecidos com o tempo.

 

Lembro-me de festas de Natal grandes e animadas, repletas de familiares e amigos. Comida que não acabava mais e pilhas de presentes. Era uma noite aguardada ansiosamente pelas crianças (eu inclusive), que não faziam ideia do empenho dos adultos para que tudo fosse perfeito.

 

Minha mãe, como boa virginiana, embrulhava os presentes um a um, todos combinando entre si, formando um composê. Era o amontoado de presentes mais elegante e harmonioso possível. Enquanto eu acreditava no Papai Noel, certamente pensava nele como um velhinho bom e detalhista: “Que velhinho caprichoso!”.

 

Não me lembro como descobri que não era ele o responsável pelos presentes. Mas não tenho trauma nenhum em relação a isso. Talvez porque presenciar minha mãe nos preparativos fosse tão fascinante quanto entrar na fábrica do Papai Noel. A fábrica era o quarto dela na chácara em que passávamos os finais de semana e férias. Um quarto que na época me parecia tão grande, mas que, com tantas caixas e embrulhos, sobravam apenas estreitos corredores para passarmos. Lembro-me bem do dia em que ela autorizou que eu entrasse e a ajudasse. Eram pilhas de brinquedos e de caixas, rolos de papel de presente e de lindas fitas natalinas, selinhos de sinos e estrelinhas. Não havia aquele monte de duendes trabalhando. Era apenas a minha mãe, sozinha e enlouquecida: separa, corta, embrulha, acha a ponta do durex, enrola, “Ih qual é esse mesmo que acabei de embrulhar?”, “Esse é de adulto, vai pra árvore, esse é de criança, vai para o saco do Papai Noel.”

 

Tudo aquilo era tão fascinante e empolgante que passei a ser sua ajudante número um (até minha irmã ter idade para ocupar esse cargo. Confesso que é mais habilidosa para laços do que eu e como todos em casa, adora ajudar e participar).

 

O final do ano era sempre muito esperado, planejado e caprichado, apesar de nunca termos sido católicos fervorosos. O Natal sempre fora um momento de amor, união, doações, cartas emocionadas e muita alegria. Tudo isso era vivido intensamente.

 

Quando me casei, em 1998, a família que ganhei através do meu marido me apresentou um Natal diferente. Por serem bastante católicos, sempre que possível, vão a uma missa de Natal. Surpreendi-me com o meu desconhecimento em relação à origem do Natal, seu significado e simbolismo e ao mesmo tempo me admirei ao ver que todos aqueles valores pregados naquela data estavam presentes não só nos Natais que passei em família desde que nasci, mas também no meu dia a dia. Essas diferenças familiares enriqueceram ainda mais minha visão e vivência do Natal.

 

Na contramão da sociedade capitalista, fui cada vez mais me deparando com o significa religioso e valioso do Natal. Independente da religião, são valores que visam a um bem maior, que traz benefícios à sociedade e ao ser humano.

 

Toda criança tem o direito de acreditar na magia do Natal e do bom velhinho. A fantasia faz parte do desenvolvimento infantil, seja em que religião ou sociedade for. No caso do Papai Noel, a bondade e a fraternidade são muito evidentes. Portanto, essa fantasia mantém acesa uma fé muito importante: a fé em ter nossos desejos atendidos, de ter alguém que nos olha com o coração (tão diferente da realidade com que nos deparamos ao crescer, não é mesmo?!) e de que há pessoas boas, nas quais podemos acreditar e confiar.

 

O fato de ser um velhinho enriquece ainda mais a fantasia e a diferencia da maioria das histórias infantis, nas quais os protagonistas são heróis jovens, valorizados pela força física.

 

Outro lindo ensinamento é a simbologia do pinheiro de Natal. O pinheiro, com seu formato triangular simboliza a Santíssima Trindade. A árvore é também um símbolo da vida e, como tal, sua tradição é mais antiga do que o Cristianismo. Antes mesmo de se comemorar o Natal, os egípcios levavam galhos de palmeiras para dentro de suas casas no dia mais curto do ano, em dezembro, simbolizando o triunfo da vida sobre a morte. Assim como, mais tarde, dentro da Igreja Católica, o Natal surgiu como representação do nascimento de Jesus, uma data de renovação e transformação.

 

Não é à toa que o final de ano é inspirador para uns e angustiante para outros. Momento de amor e estar junto, refletir sobre quem somos e aquilo que conquistamos e que ainda queremos. Valorizar o que realmente importa e quem importa. Pode ser também momento de saudade e nostalgia, mas se há saudade é porque houve bons momentos e esses precisam ter um cantinho especial no coração sempre. É um momento de doação de amor, carinho e atenção a quem amamos e a quem precisa.

 

A ideia da doação pode nos ajudar a entender a tradição dos presentes. Presentear é uma tradição proveniente das ofertas que os Reis Magos fizeram ao Menino Jesus em seu nascimento. Deram a ele: ouro (símbolo da fé), incenso (símbolo da adoração a Deus) e mirra (símbolo da transitoriedade e da eternidade).
Na Idade Média, na época do Natal, os patrões ofereciam presentes extras aos seus criados, recordando assim o começo simples de Jesus e ao mesmo tempo fortalecendo o laço entre servidores e servidos. Os presentes eram dados também às crianças. Nessa mesma direção, no século XIX, surgiu o ordenado extra no mês do Natal (décimo terceiro salário).

 

Não vivemos num mundo perfeito (longe disso) e também a maioria de nós tem uma vida muito corrida, mas se investíssemos um pouco mais de tempo apreciando e cultivando simbologias lindas como essa, quanto todos nós sairíamos ganhando? A humanidade não ganharia também?! A sociedade como um todo ganharia muito, tenho certeza. Podemos então começar?

 

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Fonte: livro “Mulher Sem Script”, de Natércia Tiba. Integrare Editora

 

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Presente da mamãe (por Içami Tiba)

dezembro 24, 2014

Dezembro é tempo de balanço e encerramento por mais um ano de trabalho, de estudo, de vida. Não há como se furtar dele. Não estando mais na idade de ganhar presentes dos pais, fiz um levantamento dos que recebi nesta minha vida tão bem vivida. Lembrei-me com muito carinho de um verdadeiro presente da minha mãe, que ganhei quando lhe fiz uma pergunta antes mesmo de começar a frequentar a escola.

Não me lembro de ter ganhado muitos presentes na minha infância, nem na adolescência. Não sentia falta deles, pois não era costume dos meus pais darem presentes aos filhos. Fazendo uma retrospectiva da minha vida, levantando os memoráveis presentes que ganhei até hoje, há um que quero passar a você por estar bem atualizado, mesmo que já o tenha passado para muitos pais, e não perco as oportunidades de usá-lo para ajudá-los e educar seus filhos. Comecei a usá-lo assim que o recebi da minha mãe.

Hoje é muito comum os pais fazerem pelos filhos o que estes são capazes de fazer. Esta é uma das formas de se criar um filho folgado. Embaixo de um folgado tem sempre um sufocado. A mãe pede ao filho que faça algo. Como nunca fez, ele não faz tão bem quanto a mãe faria. Num instante ela afasta o filho com um “Deixa que eu faço, você não sabe fazer nada mesmo!” e dá uma justifica para o filho não fazer mais praticamente nada. Quem justifica não faz. A mãe torna-se cada vez mais sufocada e o filho, folgado.

Com 7 anos de idade, vi um médico pela primeira vez. Algum tempo depois eu falei para minha mãe: “Quero ser médico!”. Ela, que havia acordado de madrugada para deixar toda a casa pronta para os sete filhos, e ainda trabalhava o dia todo no mercadinho da família, poderia ter-me respondido: “Acho difícil, pois somos imigrantes, lutamos para sobreviver, não há escola aqui, é melhor brincar com seu caminhãozinho, não me aborreça que estou muito ocupada, etc.”, mas olhou no fundo dos meus olhos e falou: “Então, você tem que estudar muito!”. Assim ela me abriu o horizonte que eu poderia conquistar, bastaria estudar bastante. Os estudos dependiam da minha dedicação… De fato estudei muito e culminei me formando na Faculdade de Medicina da USP.

Estejam meus pais onde estiverem, eu imagino que eles saibam no que o seu terceiro filho se tornou e me emociono de vê-los sorrindo para mim e minha família, satisfeitos e orgulhosos, por terem me dado um presente tão lindo e sustentável…

Sem ser obrigatoriamente materiais, há presentes que são agradáveis e úteis pela vida toda… e assim, a minha mãe abriu o meu horizonte: eu poderia conquistar qualquer coisa, bastaria estudar bastante, e os estudos dependiam da minha dedicação…

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Fonte: coluna do mês de Dezembro, da Revista Viva SA, por Içami Tiba

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Será que estamos diariamente um NOVO EU? Pense nas suas atitudes, agora, especialmente com a sua família e tenha um Feliz Natal! Por Içami Tiba

dezembro 23, 2013

Final de Ano, exaustão à vista, para quem ainda não estiver pré-comatoso. 2013 foi muito pesado a todos nós.

Quem de nós não retornou à casa cansado, necessitando desintoxicar-se do dia, tomar um belo banho, encontrar os familiares que já chegaram e os que ainda não saíram, refazer as energias e prontinho para o amanhã, que sempre temos a esperança de que seja um  NOVO DIA…

… mas será que estamos diariamente um NOVO EU? Ou já acordamos meio cansados, com um dia inteiro a ter que ser enfrentado, pensando naquela incomodativa pendência a ser resolvida, o trabalho a ser entregue, saldar aquela indevida dívida? Há dias longos demais e noites extremamente curtas? Acho que estou precisando é de férias. Talvez fazer algo muito diferente, mudar de atividade?

Uma questão que me surge à mente com muita frequência é: será que não estou usando a minha família como um grande despoluente? Falando mais diretamente: será que nossa família não está sendo um latão de lixo, onde descarrego tudo o que fui acumulando durante o dia? São tantos os “sapos engolidos” por dias, semanas, pela vida que levamos? É onde largo a raiva, contrariedade, falta de educação, os palavrões, que não soltaria se estivéssemos com visitas?

Que culpa ou responsabilidade tem a minha família pelos “sapos” que eu engulo? Epa! Vou ter que engolir também a família? A família me virou um “sapo”?

Então está mais que na hora de revermos nossos conceitos e retornarmos a ter uma vida sem “sapos”. A família não é “sapo”. É dela que nascemos e ela que constituímos, e nela que iremos morrer. Aliás, não é a família que morrerá, serei eu…  A minha família é muito maior que eu. Eu deveria é me nutrir da família, ser acolhido.

Temos que ser mais sábios para lidar com os “sapos” da vida. Não os aceitar. Mas se aceitar não engolir. Mas se engolir não digerir para não nos transformarmos em “sapos”. Não se vomita o que já passou do estômago. Eles digeridos, absorvidos e transformados em depressão, em pessoas verdes e amargas… Ou vivemos soltando “diarreias batráquias” em casa? Engolir “sapos” não é sustentável!

Celebrar alegrias e sucessos, abraçar, sorrir, cantar, comer, presentear é tão sustentável, que até data temos para isso e é chamada até “noite feliz”! Isso sim é sustentável para a existência da família. Comemoremos o Natal!

Estou bem no final do meu 31º livro, um tanto atrasado para ser um presente de Natal, mas é exatamente sobre esta sustentabilidade da saúde! Um Feliz Natal!

Içami Tiba

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Fonte: Coluna na revista Viva SA, edição de Dezembro

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Ceia de Natal é o jantar das famílias (religiosas ou nem tanto)

dezembro 24, 2012

Nem para ganhar presentes as crianças  largam seus joguinhos eletrônicos…

 

Natal é festa da família. Reveillon fica por conta de cada um dos independentes. Assim tem sido nestas últimas décadas.

A noite de Natal é na véspera, quando Papai Noel entra em frenética atividade de presentear. Esta alegria de presentear e receber presentes está sofrendo uma grande modificação.  Os presentes são distribuídos conforme sorteio do “amigo secreto”. É o “parente secreto” que escolhe num sorteio sigiloso entre os nomes de todos os que estarão presentes um que será a quem presenteará. Crianças acabam ganhando sempre mais que um pois já é clássico ganhar presentes dos pais, avós, padrinhos e outros que queiram presentear. O horário do Papai Noel chegar era à meia-noite, depois passou a ser após a ceia de Natal e agora a ceia é feita logo no começo da noite para as crianças ganharem seus presentes e poderem brincar com eles já na véspera do Natal. Estas são mudanças logísticas no ato de presentear.

A grande mudança real está no relacionamento familiar. Agora o Papai Noel é geralmente a mãe que cuida tanto da festa quanto dos presentes, ajudada pelo seu marido que pode não ser pai de um dos filhos, e este marido tem outro filho a presentear morando com a sua ex-esposa.  Ainda é a mãe que quer reunir todos os filhos. Esta questão fica amenizada se as crianças têm avós confortáveis e afetivos. Pois é a grande mãe, avó das crianças, que gostaria de reunir todos os netos em sua casa.

Família toda conseguiu se reunir, que alegria! Entretanto as crianças já têm telefones celulares próprios e estão aprendendo a se isolar do ambiente para “ficar no celular” com outros ausentes, ou mesmo com outras crianças presentes na própria sala… Quem está no celular está onde o outro está, portanto, deixa de ser presencial e passa a ser virtual isto é presencialmente ausente, fora das conversas e acontecimentos familiares.

Isto já acontece com crianças maiores em fast-foods e escolas quando cada uma delas está no seu celular. Às vezes até com a criança que está ao seu lado… Elas não mais conversam entre si. Cada uma está com outra no celular…

Que tal fazermos um pacto com todos no qual ninguém fala ao celular nesta noite? Pelo menos uma noite no ano, a família toda poderia comemorar presencialmente junta a alegria da Ceia de Natal e do prazer de curtir os presentes entre os presenteados e os Parentes-Noel.

 

Içami Tiba

 


dezembro 23, 2011


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