Hipnotizando Maria…! Richard Bach

julho 5, 2013

Aconteceu a uma hora de North Platte, vinte minutos a norte de Cheyenne.

– Acho que ele morreu!

            Era a voz de uma mulher pelo rádio.

– Alguém aí está me ouvindo? Acho que meu marido morreu!

            A transmissão dela estava a 122,8 megaciclos, a frequência Unicom dos aeroportos pequenos; sua voz era alta e clara: não devia estar muito longe dali.

            Ninguém respondeu.

 

– Você consegue fazer isso, senhor Forbes. – Soava calma e paciente, aquela voz inesquecível, com um toque sulino.

– Senhor Dexter? – disse ele em voz alta, atônito. Era seu instrutor de voo de quarenta anos atrás, uma voz que ele jamais iria esquecer. Ele lançou um olhar rápido para o espelho, checando o assento de trás. Estava vazio, é claro.

            Não havia outro som a não ser o do motor barulhento e suave que seguia em frente.

– Alguém me ajude, ele morreu! Ele apertou o botão do microfone. – Pode ser, senhora – disse Jamie Forbes –, mas também pode ser que não. A senhora consegue pilotar esse avião sem ele.

– Não, nunca aprendi! Juan está caído perto da porta, ele não está se mexendo!

– É melhor nós pousarmos logo, então – disse ele, escolhendo o “nós” porque já estava pensando no que ela diria em seguida.

– Não sei pilotar um avião!

– Certo – disse ele –, então nós dois vamos pousar esse avião juntos.

É um acontecimento muito raro um passageiro assumir o controle quando o piloto está incapacitado. Sorte de todos eles que era um bonito dia para voar.

– Sabe como funcionam os controles, senhora? – perguntou ele. – Com os quais a senhora movimenta o manche e estabiliza as asas?

– Sim. Aquilo tornou tudo mais fácil. – Só mantenha as asas estabilizadas, por ora.             Ele lhe perguntou quando e onde eles haviam decolado e para onde estavam indo, virou para leste e, bingo, um minuto depois viu um Cessna 182 abaixo a dez horas, um pouco mais à frente da asa esquerda do T-34.

– Vamos virar só um pouco para a direita – disse ele. – Estamos vendo a senhora.

Se o avião não se virasse, ele não a veria de jeito nenhum, mas fez uma aposta e ganhou. As asas se inclinaram.

Ele mergulhou na curva feita por ela e saiu ao seu lado, deslizando em uma formação a cinquenta pés de distância.

– Se olhar para a sua direita… – disse ele. Ela olhou, e ele acenou para ela. – Tudo vai ficar bem agora – continuou ele. – Vamos fazer vocês chegarem ao aeroporto e em terra firme.

– Não sei pilotar!

 

            Quando ela disse aquilo, as asas se inclinaram mais, na direção dele.

            Ele se inclinou com ela, dois aviões fazendo uma curva juntos.

– Isso não será nenhum problema, senhora – disse ele. – Sou instrutor.

– Graças a Deus – disse ela, fazendo o avião se inclinar ainda mais.

– Melhor virar esse manche para a esquerda – falou ele. – Não muito, é só virar um pouco com firmeza e suavidade para a esquerda. Isso estabilizará o voo de vocês.

            Ela olhou para a frente, virou o manche e as asas do Cessna se estabilizaram.

– É isso aí! ́ – disse ele. – Tem certeza de que nunca pilotou antes?

            A voz dela veio mais calma: – Já vi Juan pilotando. – Bom, a senhora prestou mesmo atenção. Ele descobriu que ela sabia onde ficava o acelerador de mão e os pedais do leme, e conseguiu fazer com que virasse o avião para a esquerda até seguir na direção do aeroporto de Cheyenne.

– Qual o seu nome, senhora? – Estou com medo – disse ela. – Não vou conseguir!

– Está brincando comigo. A senhora já está pilotando esse avião há cinco minutos e está se saindo muito bem. É só relaxar, ficar tranquila, fingir que é a comandante de uma companhia aérea.

– Fingir que sou o quê?

            Ela tinha ouvido, mas não pôde acreditar no que aquela pessoa dizia.

– Esqueça tudo, menos que a senhora é a comandante de uma companhia aérea, a primeira mulher comandante que essa empresa já contratou, e que pilota há anos e anos. Está completamente à vontade nesse avião, feliz da vida. Pousar um Cessnazinho em um dia lindo como esse? Brincadeira de criança!

            Esse homem está doido, pensou ela, mas ele é instrutor.

– Brincadeira de criança – repetiu ela.

– Isso mesmo. De qual brincadeira de criança a senhora gostava mais?

            Ela o olhou pela janela direita do Cessna, com um sorriso confuso e perturbado; estou prestes a morrer e ele vem me perguntar de brincadeira de criança? De todos os resgatadores possíveis, eu dou de cara com um maluco? – Pular corda?

            Ele sorriu de volta. Ótimo. Ela sabe que sou pirado, então agora precisa ser a sã da história – e isso significa manter a calma.

– Brincadeira de pular corda.

– Meu nome é Maria. – Como se ela soubesse que aquilo poderia fazê-lo voltar ao normal.

            O aeroporto de Cheyenne despontou, uma faixa no horizonte. A quinze milhas de distância, sete minutos de voo. Em vez de escolher um dos aeroportos menores mais próximos, ele decidira pousar em Cheyenne por ter pistas compridas e ter ambulância.

– Por que não tenta empurrar esse acelerador de mão, Maria? A senhora vai escutar o motor; o barulho dele vai ficar mais alto, como já sabe, e o avião começará a subir, bem devagar. Empurre-o todo, agora, e vamos praticar uma subidinha aqui.

            Ele queria lembrá-la da subida, é claro, para o caso de ela voar baixo demais na aproximação para o pouso. Queria que ela soubesse que estava segura nos céus e que empurrar o acelerador de mão seria a maneira de voltar a subir, quando ela quisesse.

– A senhora está indo bem, comandante – disse ele. – É uma pilota inata.

Então ele fez com que ela puxasse o acelerador de mão, e os dois desceram juntos até a altitude de tráfego.

 

            A mulher ao seu lado olhou-o de seu avião.

            Dois aviões quase se tocando no ar… e entretanto não havia nada que ele pudesse fazer para pilotar o avião por ela. A única coisa que tinha eram palavras.

– Estamos quase lá – disse-lhe ele. – Maria, a senhora está pilotando superbem. Só vire na minha direção de leve, por uns dez segundos mais ou menos, depois volte a estabilizar as asas.

            Ela apertou o botão do microfone, mas não disse nada. O avião se inclinou para a direita.

– Está indo bem. Vou falar com a torre de comando em outro rádio. Não se preocupe, ficarei na escuta com a senhora neste aqui, também. Pode falar comigo na hora em que quiser, certo?

            Ela fez que sim.

            Ele ligou o rádio número dois na frequência de Cheyenne e chamou a torre.

– Alô, Cheyenne, aqui é o Cessna 2461 Echo.

O número da aeronave estava pintado na lateral do avião dela. Ele não precisava fornecer o seu próprio número.

– Seis Um Echo, prossiga.

– Seis Um Echo é um voo com duas pessoas que está em aproximação para pouso oito milhas a norte.

– Positivo, Seis Um Echo. Autorização para aterrissagem à esquerda na Pista Nove.

– Positivo – respondeu ele. – E o Seis Um Echo é um Cessna 182, piloto incapacitado. A passageira está pilotando o avião; estou voando ao seu lado, ajudando.

            Houve um silêncio. – Repita, Seis Um Echo. O piloto está o quê? – O piloto está inconsciente. A passageira está pilotando a aeronave. – Positivo. Pouso liberado em qualquer pista.

            Está declarando uma emergência? – Negativo. Vamos usar a Pista Nove. Ela está indo bem, mas não custa deixar de prontidão uma ambulância para o piloto e um caminhão de bombeiros. Deixe os veículos atrás da pista de pouso, certo? Não queremos que ela se distraia com equipamentos seguindo ao seu lado durante a aterrissagem.

– Positivo, vamos manter os equipamentos atrás da aeronave. Atenção: todas as aeronaves na área de Cheyenne saiam, por favor, da área de tráfego do aeroporto, temos uma emergência.

– Ela está em Unicom, Torre, dois-dois-oito. Vou continuar falando com ela nessa frequência, mas escutando a sua.

– Positivo, Seis Um Eco. Boa sorte.

– Não é necessário. Ela está indo bem. Ele voltou a sintonizar o rádio de novo em Unicom. – O aeroporto está aí à sua esquerda, Maria – disse ele. – Vamos fazer uma curva grande e suave para alinhar com a pista. Bem suave, sem pressa. Isso é fácil para você.

            Eles executaram um enorme padrão de pouso, com pequenas curvas vagarosas; o instrutor falava com ela o tempo todo.

– Bem, aqui, a senhora pode puxar o acelerador de mão, levar o manete abaixo da linha do horizonte, como fizemos antes, em uma descida bem fácil. O avião adora isso.

            Ela assentiu. Se esse homem está tagarelando que os aviões adoram coisas, então provavelmente isso que estamos fazendo não é tão perigoso assim.

– Se não gostar dessa aproximação – disse ele –, nós podemos voltar a subir e fazer aproximações o dia todo, se quiser. Só que essa aqui está me parecendo ótima. A senhora está indo muito bem.

            Ele não lhe perguntou quanto combustível ela ainda tinha.

            As duas aeronaves foram suavemente para a esquerda, rumo à aproximação final; a pista corria bem à frente, concreto largo com sete quilômetros de comprimento.

– O que vamos fazer é tocar o chão de um jeito bem suave; vamos colocar uma roda de cada lado dessa linha branca comprida que está no meio da pista. Ótimo, comandante. Acelere só um pouco mais, empurre o acelerador de mão para a frente mais ou menos um centímetro…

Ela estava calma e reagindo bem agora.

– Traga esse acelerador para trás só um pouquinho. Por falar nisso, a senhora é uma piloto fantástica. É suave nos controles…

            Ele se afastou alguns metros da asa dela enquanto os aviões desciam na direção do solo.

– Segure aí; voe direto para baixo em direção a essa linha do meio… pronto, muito bem. Relaxe, relaxe… mexa os dedos dos pés. A senhora está voando como um piloto veterano. Agora traga o acelerador um centímetro para trás… Leve o manche também para trás, uns oito centímetros. Ele vai parecer meio pesado, mas é assim mesmo que tem de parecer. Está lindo, a senhora fará um pouso fantástico.

            As rodas estavam a um metro e meio da pista… um metro.

– Mantenha o nariz do avião para cima como está agora, e vá levando esse acelerador todo para trás, todo para trás.

 

            As rodas tocaram a pista, uma fumaça azul de borracha saiu dos pneus.

– Perfeito – disse ele –, pouso perfeito. Agora pode soltar o manche, a senhora não precisará dele no solo. Manobre o avião com os pedais e deixe que ele siga até parar, aí mesmo na pista. Uma ambulância estará ao seu lado daqui a pouco.

            Ele puxou o seu próprio acelerador de mão e o T-34 passou de rasante pelo avião dela, subindo.

– Ótimo pouso – disse ele. – A senhora é uma pilota e tanto.

            Ela não respondeu.

            Ele viu por sobre o ombro a ambulância correr pela pista atrás dela. O veículo desacelerou quando o avião desacelerou, depois parou, com as portas abertas. O caminhão de bombeiros, vermelho e quadrado, veio rodando atrás, desnecessário.

            Enquanto a torre de controle tinha o suficiente para se ocupar, ele não disse mais nada. Em menos de um minuto o seu avião estava fora de vista, rumo a North Platte.

 

Imagem

 

Fonte: livro “Hipnotizando Maria” de Richard Bach – Integrare Editora

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abril 26, 2011

Aconteceu a uma hora de North Platte, vinte minutos a norte de Cheyenne.

– Acho que ele morreu!

Era a voz de uma mulher pelo rádio.

– Alguém aí está me ouvindo? Acho que meu marido morreu!

A transmissão dela estava a 122,8 megaciclos, a frequência Unicom dos aeroportos pequenos; sua voz era alta e clara: não devia estar muito longe dali.

Ninguém respondeu.

– Você consegue fazer isso, senhor Forbes. – Soava calma e paciente, aquela voz inesquecível, com um toque sulino.

– Senhor Dexter? – disse ele em voz alta, atônito.

Era seu instrutor de voo de quarenta anos atrás, uma voz que ele jamais iria esquecer. Ele lançou um olhar  rápido para o espelho, checando o assento de trás.

Estava vazio, é claro.

Não havia outro som a não ser o do motor barulhento e suave que seguia em frente.

– Alguém me ajude, ele morreu!

Ele apertou o botão do microfone.

– Pode ser, senhora – disse Jamie Forbes –, mas também pode ser que não. A senhora consegue pilotar  esse avião sem ele.

Os maiores mistérios são aqueles cujas

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As melhores soluções são aquelas para

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Fonte: trecho do livro “Hipnotizando Maria”, de Richard Bach – Integrare Editora


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