Coincidências existem?

setembro 9, 2011

Oito e meia da manhã, o café do aeroporto estava cheio. Ele encontrou um lugar, abriu o cardápio.

– Tudo bem se eu me sentar à sua mesa?

Jamie Forbes ergueu o olhar para ela, uma dessas pessoas de que você gosta no minuto em que bate o olho.

– Sente aí – disse ele.

Ela colocou uma mochila ao seu lado.

– É aqui que se aprende a pilotar?

– Não – respondeu ele, apontando para o céu pela janela.

– Você aprende a pilotar lá em cima.

Ela olhou e assentiu.

– Sempre disse que um dia iria aprender. Aprender a pilotar. Prometi a mim mesma, mas não transformei a promessa em realidade.

– Nunca é tarde – disse ele.

– Ah… – fez ela, com um sorriso melancólico. – Acho que para mim é. – Ela estendeu a mão. – Dee Hallock.

– Jamie Forbes.

Os dois olharam para o cardápio. Algo leve, só um lanchinho, pensou ele. Suco de laranja e torrada seriam uma opção saudável.

– Você está em viagem – comentou ele.

– Sim. Pegando carona. – Ela colocou o cardápio de lado e, quando a garçonete chegou, pediu: – Chá e torrada, por favor. De hortelã e com pão integral.

– Sim, senhora – disse a garçonete, memorizando o pedido fácil, e depois se voltou para ele.

– Chocolate quente e torrada de centeio. Carona?

– Você vai pilotar hoje – comentou a garçonete. – Não devia fazer um pedido tão leve, nesta manhã.

– Leve é bom – disse ele.

Ela sorriu e saiu para servir outra mesa, com os pedidos dos dois na cabeça.

– Você está pegando carona em carros ou aviões? – quis saber ele.

– Não tinha pensado em aviões – respondeu Dee. – É possível fazer isso?

– Pedir não dói. Mas é melhor tomar cuidado.

– Por quê?

– Aqui é região de montanha. Alguns aviões não voam tão bem quanto outros, bem alto, com passageiros.

Quarenta e poucos anos, pensou ele. Executiva. Por que está pegando carona?

– Respondendo à sua pergunta – disse ela –, estou testando uma hipótese.

Cabelos castanho-escuros, olhos castanhos, aquela beleza magnética que a curiosidade e a inteligência trazem ao rosto de uma mulher.

– Minha pergunta?

– Por que ela está pegando carona?

Ele piscou.

– Tem razão. Eu estava pensando em algo desse tipo.

Qual é sua hipótese?

– Não existem coincidências.

Interessante, pensou ele.

– Que tipo de coincidências não existem?

– Sou uma exploradora das oportunidades iguais – respondeu ela. – Não importa de que tipo. Você e eu, por exemplo; não me surpreenderia se nós dois tivéssemos um amigo importante em comum. Não me surpreenderia se houvesse um motivo pelo qual estamos nos encontrando. Nem um pouco.

Ela o olhou como se soubesse que havia mesmo.

– É claro que não temos como saber – disse ele.

Ela sorriu:

– A não ser por coincidência.

– Que é algo que não existe.

– É o que estou descobrindo.

Busca bacana, pensou ele.

– E está descobrindo mais coincidências por quilômetro nas estradas do que no seu escritório?

Ela assentiu.

– Não acha isso perigoso, pegar carona? Uma mulher atraente pedindo para ser apanhada por qualquer um na estrada?

Risada de isso-é-impossível.

– Eu não atraio o perigo.

Aposto que não, pensou ele. Tem tanta confiança assim em você mesma ou é apenas ingênua?

– A sua hipótese está se confirmando?

– Ainda não estou pronta para chamá-la de lei, mas acho que, pelo menos, logo mais será minha teoria.

Ela havia sorrido ao comentar sobre atrair o perigo; ele ainda não entendera aquilo.

– Eu sou uma coincidência? – perguntou ele.

– Jamie é uma coincidência? – disse ela, como se estivesse falando com alguém que ele não pudesse ver. – Claro que não. Vou lhe contar depois.

– Acho que você é uma coincidência – disse ele. – E não tem nada de errado nisso. Eu lhe desejo sorte em sua viagem.

– Não houve nenhuma palavra nesta mesa que significasse algo para você? – quis saber ela. – Nada que o tenha transformado até agora?

– “Até agora” é o termo operativo – disse ele. – Diga algo capaz de me chocar, moça, algo desconhecido para mim, que possa mudar minha vida, e concordarei que você não é uma coincidência.

Ela pensou a respeito, com um sorrisinho.

–      Vou lhe dizer uma coisa – falou. – Sou hipnotizadora.

Fonte: Trecho do livro “Hipnotizando Maria”, de Richard Bach

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abril 26, 2011

Aconteceu a uma hora de North Platte, vinte minutos a norte de Cheyenne.

– Acho que ele morreu!

Era a voz de uma mulher pelo rádio.

– Alguém aí está me ouvindo? Acho que meu marido morreu!

A transmissão dela estava a 122,8 megaciclos, a frequência Unicom dos aeroportos pequenos; sua voz era alta e clara: não devia estar muito longe dali.

Ninguém respondeu.

– Você consegue fazer isso, senhor Forbes. – Soava calma e paciente, aquela voz inesquecível, com um toque sulino.

– Senhor Dexter? – disse ele em voz alta, atônito.

Era seu instrutor de voo de quarenta anos atrás, uma voz que ele jamais iria esquecer. Ele lançou um olhar  rápido para o espelho, checando o assento de trás.

Estava vazio, é claro.

Não havia outro som a não ser o do motor barulhento e suave que seguia em frente.

– Alguém me ajude, ele morreu!

Ele apertou o botão do microfone.

– Pode ser, senhora – disse Jamie Forbes –, mas também pode ser que não. A senhora consegue pilotar  esse avião sem ele.

Os maiores mistérios são aqueles cujas

respostas se encontram diante de nossos olhos.

As melhores soluções são aquelas para

 as quais, de repente, nos damos conta de

 que sempre soubemos a resposta.

Criamos nossa própria realidade?

 Ou apenas nossas próprias aparências?

Do autor dos best-sellers

Fernão Capelo Gaivota Ilusões.

Uma história de descobertas, compreensão

 e expansão de horizontes.

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Fonte: trecho do livro “Hipnotizando Maria”, de Richard Bach – Integrare Editora


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