Ai, que preguiça!

maio 16, 2011

Caro leitor, você tem três alternativas para dizer de quem é a frase acima: (a) de Macunaíma, o herói sem caráter do Mário de Andrade, que se nega a levantar da rede; (b) do seu sobrinho adolescente, quando recebe uma ordem expressa para arrumar o quarto; (c) de qualquer ser humano diante de uma tarefa que não lhe dá prazer ou que ele considera inútil.

Se você respondeu (d) todas as anteriores, parabéns! Você acertou. A preguiça é companheira de todos nós, e não apenas dos adolescentes e dos macunaímas da vida. Ela é comum, constante e diária. Ela é uma espécie de defesa contra a realização de trabalhos ou atividades, e ocorre porque temos um comando central que insiste em economizar energia. Esse mecanismo é uma herança de nossos ancestrais — na época deles, era muito difícil abastecer a despensa.

Quanto menos energia gastarmos, menos necessidade teremos de ir à luta, caçar ou saquear. E, como essas coisas têm lá seus perigos, é prudente evitá-las. É melhor ficar descansando, economizando energia para as necessidades vitais. Daí surge a tal da preguiça, sussurrando em nosso ouvido para que fiquemos quietinhos, fazendo, de preferência, absolutamente nada.

Atualmente não precisamos mais mobilizar grandes esforços físicos para obter alimento. Basta ir à geladeira ou, no máximo, ao supermercado. Desenvolvemos uma organização social que tem como virtude e objetivo facilitar a vida do ser humano. Temos ao alcance de nossas mãos — e de nosso dinheiro — as benesses da ciência, a tecnologia, os serviços prestados por profissionais que ganham para isso, a organização e os métodos que reduzem esforços, e assim por diante. É assombrosamente mais simples viver hoje do que na época de nossos avós, por exemplo (o que, para a História, não significa nada — é apenas um instante transcorrido).

Imagine a trabalheira que se tinha para, por exemplo, simplesmente viver, quando o Brasil foi descoberto. Como não havia refrigeração, os alimentos não podiam ser armazenados a não ser com a adição de especiarias, e por um período muito mais curto do que é possível hoje. A tecnologia de comunicação era o mensageiro, a de transporte era o lombo do animal, a de aquecimento era a lenha. Isso sem tentar explicar o que era viver sem água encanada e sem esgoto.

Certa vez, em Portugal, visitei o castelo em que vivia Dom João VI antes de mudar-se com a corte para o Brasil, fugindo de Napoleão. Foi quando conheci o verdadeiro trono, que lhe fazia uma imensa falta no Rio de Janeiro de 1808. É uma cadeira ornada, com os braços almofadados, as armas imperiais ostentadas no espaldar e — imagine só — um buraco no assento. É isso mesmo que você está pensando: trata-se de um “trono sanitário”, cujo recipiente inferior, após o uso real, devia ser esvaziado por um servo especializado. Sinceramente… ai, que preguiça!

Fonte: trecho do livro “Caminhos da Mudança – Reflexões sobre um mundo impermanente e sobre as mudanças “de dentro para fora”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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abril 25, 2011

Vamos começar esclarecendo que estamos falando de duas coisas diferentes. Rotina é a repetição sistemática de uma conduta. Monotonia indica que essa conduta é chata, sem sabor, aborrecida.

A rotina não é necessariamente ruim e, para algumas coisas, é necessária e desejável. Para obter bons resultados no estudo, no trabalho e na ginástica, por exemplo, é necessário que as atividades sejam repetidas sistematicamente, pois é de sua constância e de seu somatório que aparece o resultado. Eu, por exemplo, juro que gostaria de ter mais rotina em minha vida. Atualmente, meu trabalho me obriga a viajar muito, variando imensamente meus dias, o que significa que minha vida não tem rotina nenhuma. E, acredite, eu me ressinto disso. Gostaria de poder escrever todos os dias — isso me faria produzir textos mais sofisticados. Adoraria poder praticar um esporte regularmente, ou pelo menos freqüentar a academia três vezes por semana o ano todo, pois isso teria um impacto positivo em minha saúde. E por aí vai. Há várias atividades rotineiras que não são monótonas; pelo contrário, tornam-se desgastantes exatamente porque são feitas esporadicamente, sem a regularidade necessária à boa prática.

Casamento também é assim. Estar casado é conviver diariamente com um sem-número de pequenas rotinas, que podem ser maravilhosas. Ou não? Talvez a maneira como encaramos a rotina no relacionamento seja uma chance de avaliar se temos ou não um bom casamento, ou se precisamos, pelo menos, fazer alguns ajustes. Estar casado significa dormir com a mesma pessoa todas as noites e acordar ao lado dela todas as manhãs. Gostar disso significa ter um bom casamento.

A rotina de um bom casamento é composta por um imenso conjunto de minúcias adoráveis: beijar as costas do outro antes de dormir; levantar primeiro de manhã para ir ao banheiro e deixar a escova dele já com pasta de dente sobre a pia; servir, um ao outro, a primeira xícara do dia com a mistura exata do café com o leite; secar a louça enquanto o outro lava; ligar do trabalho no meio da tarde. Essas são rotinas, sim, mas rotinas saborosas, desde que nelas haja o tempero adocicado do amor em oposição ao amargo sabor da obrigação.

Estar casado é dividir os momentos que se repetem e, por isso mesmo, se aprimoram. Lembro-me de ter perguntado à minha mulher por que de repente ela parecia absorta e ausente — o que muito me irritava. Então, ouvi uma suave explicação: “Há momentos em que sinto necessidade de agradecer”. Levei um tempo para perceber — macho troglodita — que ela agradecia pela rotina, pelo prazer de ter ao seu alcance a segurança de entender sua vida e controlar seus movimentos.

A monotonia, em contrapartida, é a vilã não só do casamento, mas da vida como um todo. Definitivamente, a monotonia é inimiga de quase tudo de bom que nasce da alma humana. Ela mata a criatividade, afoga a alegria, sufoca as relações, amaldiçoa a felicidade. Monotonia significa manter o mesmo tom, mesmo tendo à disposição uma grande variedade deles. A palavra “monotonia” remete à metáfora auditiva, então vale a pena lembrar: o ouvido humano normal é capaz de perceber sons de freqü.ncias entre 15 e 25.000 Hz. Isso permite ao cérebro captar uma quantidade imensa de sons, porque ele precisa disso para conectarse com o ambiente e compreendê-lo. Não é justo — nem com a biologia nem com a psicologia, muito menos com a poesia — aprisionar alguém a poucos tons. A monotonia, via esta metáfora, é desumana e destrutiva.

Fonte: Texto retirado do livro “Caminhos da Mudança – Reflexões sobre um mundo impermanente e sobre as mudanças de “dentro para fora”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora



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