Da paixão para o amor : um ponto final ou um ponto de mutação? (por Alfredo Simonetti)

outubro 3, 2014

A passagem da paixão ao amor é da ordem do tropeço: é sempre desconcertante descobrir que as coisas mudaram. Por mais que se saiba que isso costuma acontecer na maioria dos relacionamentos, quando as coisas esfriam um pouco ou se tornam muito complicadas, os amantes se surpreendem: “Hum? Como assim? O que é que aconteceu com a gente?”. Este é um momento importante, é um momento de decisão.

Pode ser um ponto final, ou então um ponto de mutação. Às vezes a relação termina aí, mas, muitas vezes, é exatamente nessa hora que acontece uma transformação, uma mudança para outro tipo de relacionamento. As coisas podem não ser mais como antes, mas cada instante tem seus encantos, e cabe aos amantes ir além dos desencantos do fim da paixão e descobrir as trilhas do novo amor.

O amor pode não ser paixão, mas tem a ver com ela, não é a ausência dela: existem no amor momentos de paixão, só que mais calma e mais duradoura.

Paixão, por definição, é sentimento em ápice, é como uma montanha, vai subindo, subindo até um pico lá no alto, e depois vai descendo, descendo, e finda. Um gráfico da paixão é agudo, intenso, mas também é breve e com final certo: termina. Por outro lado, o gráfico do amor lembra mais uma cordilheira, uma cadeia de montanhas entremeadas de vales, planícies e platôs, é longo, flutuante e de final aberto: não é tão certo o que vai acontecer.

O nó e o laço_Alfredo Simonetti_Integrare Ed

Fonte: livro “O nó e o Laço – Desafios de um relacionamento amoroso”, de Alfredo Simonetti. Integrare Editora

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Por que eu te amo? Por Alfredo Simonetti

julho 3, 2013

Por que nos apaixonamos por uma determinada pessoa? Pelo que ela é, pela sua essência – responderíamos de pronto, levados pelas ilusões do amor romântico. Mas é bem pouco provável que seja por isso.

            Em primeiro lugar, a paixão é rápida; quando vem é quase instantânea, e para se conhecer a essência de uma pessoa, se é que isto é possível, leva-se muito tempo. Aliás, quando depois de longo tempo de convivência chegamos mesmo a conhecer a fundo o outro muitas vezes nos surpreendemos com o que encontramos e, assustados, reclamamos: “mas você é isso ?”, “nunca imaginei que você fosse capaz disso”.

            O que causa a paixão são pequenas coisas, um detalhe do jeito da pessoa nos captura num enlaçamento vertiginoso. A psicanálise propõe que a pulsão é sempre parcial, e Roberto Carlos está certo ao cantar “… detalhes tão pequenos de nós dois…” Roland Barthes, no livro Fragmentos de um discurso amoroso , descreve este arrebatamento tão claramente que melhor é passar logo a palavra para ele:

 

No mundo animal, o que dá partida à mecânica sexual não é o indivíduo em todos os detalhes, mas apenas uma forma, um fetiche colorido do outro, que ‘me’ toca bruscamente. É a voz, a queda dos ombros, a silhueta esbelta, a quentura da mão, o jeito de sorrir. Posso me sentir atraído por uma pose ligeiramente vulgar, feita para provocar, por trivialidades sutis e móveis, que passam rapidamente pelo corpo do outro: um jeito rápido mas expressivo, de afastar os dedos, de abrir as pernas, de mexer os lábios carnudos ao comer, de se ocupar de algo muito prosaico, de tornar o corpo idiota por um segundo.

 

Quem diria que escolhemos a pessoa com quem queremos viver o resto de nossas vidas de maneira tão prosaica? Pois é… E mais: encantamo-nos com um detalhe da pessoa, mas casamos com a pessoa inteira, com todas as suas outras partes de que não gostamos, e às vezes nem conhecemos. Sem dúvida esta é uma das muitas causas do nó no casamento.

 

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Fonte: livro “O nó e o laço – Desafios de um relacionamento amoroso”, de Alfredo Simonetti – Integrare Editora

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Até que ponto as “DRs” são úteis? Por Alfredo Simonetti

março 18, 2013

E como termina a conversa amorosa? A conversa amorosa, como vimos, serve a vários propósitos. Assim, um bom momento para encerrar é quando o problema, o nó em questão, tiver sido resolvido, e é isso mesmo o que acontece, pelo menos em alguns casos.

 

            A conversa amorosa efetivamente é muita boa para acertar as coisas entre o casal, seja pela descarga emocional que ela provoca, diminuindo assim a tensão entre os parceiros, seja proporcionando uma solução satisfatória para os desencontros, ou, no mínimo, favorecendo acordos comportamentais que satisfaçam as necessidades dos dois parceiros.

            Mas acontece que muitos problemas de uma relação amorosa não podem ser resolvidos no sentido exato do termo, ou seja, muitas vezes não é possível chegar-se a uma conclusão ou a uma mudança de comportamento ou de situação.

            Por causa disso, tem gente que acha até que nem vale a pena conversar, dizem “…não vai dar em nada mesmo… de que adianta falar, as coisas não vão mudar mesmo”.

            Isto é um grande equívoco porque a conversa amorosa não termina em uma solução. Ela é valiosa porque no amor não se conversa apenas para resolver problemas, conversa-se porque é preciso falar, até sobre aquilo que não pode ser resolvido, porque é preciso falar confiando que aquilo que não se resolve se dissolve.

            Na prática, a conversa amorosa termina assim: vai mudando de ritmo, vai ficando mais devagar, começa a esfriar e para, pronto, acabou, na maioria das vezes sem grandes conclusões ou soluções, simplesmente terminou.

            Na verdade ela não termina, ela é interrompida, para ser retomada depois, pois uma conversa amorosa é mesmo coisa de momento, ela tem ponto de partida, mas não tem ponto de chegada definido.

 

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Fonte: livro “O nó e o Laço – Desafios de um relacionamento amoroso”, de Alfredo Simonetti – Integrare Editora

 

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A conta do AMOR

fevereiro 20, 2013

Outra ilusão importante no amor é a de que ele resolve nossas mágoas do passado.

 

            O amor de deficiência funciona assim como um amor de caderneta. A pessoa vai anotando ao longo da vida o quanto lhe faltou de amor, até que um dia, quando aparece alguém que a ama, ela apresenta a conta toda.

 

            Acontece que uma pessoa, mesmo dando muito amor, não consegue apagar as dores do passado de outra pessoa, pelo menos não na maioria dos casos. Estas marcas amorosas não costumam se apagar pela compensação, e sim, pela via da elaboração, da superação. Este é um caminho individual que pode até ser facilitado por uma companhia carinhosa e cuidadosa, mas não pode ser percorrido por ela.

            É claro que, se gostamos de uma pessoa, tomamos cuidado para não feri-la, e em especial não feri-la nos mesmos lugares já machucados, mas isto não quer dizer que somos responsáveis pelo seu passado, embora no amor romântico, acabamos prometendo exatamente isto.

            Se uma pessoa foi traída em um relacionamento anterior, isso não significa que o parceiro atual tenha de arcar com as consequências disso e suportar toda a insegurança que vem daí, mas na prática é o que acaba acontecendo.

            Este é o nó que vem do passado.

 

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Fonte: livro “O nó e o Laço – Desafios de um relacionamento amoroso”, de Alfredo Simonetti – Integrare Editora

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Da paixão ao amor

novembro 5, 2012

A passagem da paixão ao amor é da ordem do tropeço: é sempre desconcertante descobrir que as coisas mudaram. Por mais que se saiba que isso costuma acontecer na maioria dos relacionamentos, quando as coisas esfriam um pouco ou se tornam muito complicadas, os amantes se surpreendem: “Hum? Como assim? O que é que aconteceu com a gente?”. Este é um momento importante, é um momento de decisão.

Pode ser um ponto final, ou então um ponto de mutação. Às vezes a relação termina aí, mas, muitas vezes, é exatamente nessa hora que acontece uma transformação, uma mudança para outro tipo de relacionamento.

As coisas podem não ser mais como antes, mas cada instante tem seus encantos, e cabe aos amantes ir além dos desencantos do fim da paixão e descobrir as trilhas do novo amor.

O amor pode não ser paixão, mas tem a ver com ela, não é a ausência dela: existem no amor momentos de paixão, só que mais calma e mais duradoura.

Paixão, por definição, é sentimento em ápice, é como uma montanha, vai subindo, subindo até um pico lá no alto, e depois vai descendo, descendo, e finda. Um gráfico da paixão é agudo, intenso, mas também é breve e com final certo: termina. Por outro lado, o gráfico do amor lembra mais uma cordilheira, uma cadeia de montanhas entremeadas de vales, planícies e platôs, é longo, flutuante e de final aberto: não é tão certo o que vai acontecer.

 

Fonte: livro “O nó e o Laço – Desafios de um relacionamento amoroso” de Alfredo Simonetti – Integrare Editora

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Sobre as famosas “DRs”: são mesmo necessárias no relacionamento?

outubro 5, 2012

No campo do casamento, parece que não há muito jeito, ou o casal discute minimamente a relação, ou vai acabar discutindo intensamente na relação. Quem olha de fora e vê um casal discutindo irritada e raivosamente sobre pequenas bobagens, sobre assuntos sem importância não vê – e o casal na maioria das vezes também não vê – que o sofrimento é outro.

Geralmente há algum tema ou algum sentimento que foi evitado, ou que não foi resolvido, que não foi dito, mas que insiste em retornar por outros caminhos. Não é assim mesmo que acontece no dia a dia do casamento? Pense na última discussão que você e seu cônjuge tiveram, veja se foi mesmo em torno do verdadeiro problema, será que foi? Ou foi apenas uma maneira momentânea de descarregar a irritação? O que você acha?

É preciso esclarecer, desde já, um equivoco muito comum sobre essa questão de conversa amorosa. Enganase quem pensa que “discutir a relação” serve para resolver problemas. Não é nada disso, resolver problemas é motivo para reuniões – e olhe lá. Não se discute a relação para trocar informação ou resolver problemas (os problemas são só o pretexto). Discute-se a relação para criar um sentimento de ligação, para se sentir ouvido, sentir-se amado, pedir garantias, desfazer e às vezes fazer fantasias, e coisas assim. Discutir a relação não é uma transação cognitiva, é uma transação afetiva, uma espécie de relação sexual não corporal, não no sentido do prazer evidentemente, mas no sentido da intimidade, do envolvimento, do enlaçamento.

Certa vez um paciente me disse que agora, depois

de anos de casamento, ele estava aprendendo

a conversar com sua mulher, e explicou:

“Agora eu consigo escutar o que ela tem para

dizer sem querer ficar resolvendo tudo”. É essa

a arte da conversa amorosa.

Existem pessoas e casais que conseguem afrouxar o nó em silêncio, mas estes são alguns poucos sortudos, já que a maioria de nós tem mesmo de recorrer à palavra, esse instrumento tão frágil e tão confuso. Acontece que não é uma coisa simples este negócio de falar-no-amor, algumas pessoas não gostam, e não querem nem saber da história de discutir a relação, outras não sabem como fazer isso, enquanto outras têm muita ilusão, e outras ainda parecem que só sabem fazer isso.

Por causa dessas dificuldades, e numa tentativa de transformar “a briga” em “um diálogo” este livro apresenta algumas ideias sobre como começar uma conversa, onde pode ser melhor conversar, quando conversar e quando adiar; e também sobre o que conversar e se convém ou não evitar algum tema, e finalmente sobre como terminar um conversa, se é que existe tal coisa em um casamento.

 

Fonte: livro “O nó e o Laço – Desafios de um relacionamento amoroso”, de Alfredo Simonetti – Integrare Editora

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