Valor não é preço por Eugenio Mussak

Pessoas não têm preço, têm valor. O trabalho de uma pessoa pode ser quantificado por sua utilidade ou por sua raridade, e pago por tais atributos, mas não a pessoa em si. Podemos comprar o serviço de alguém, mas não podemos comprar sua essência.

 

Entretanto, é sempre bom frisar que é isso mesmo que as pessoas têm de ter: essência. Conteúdo, valores, autoapreciação. Em vez disso, entretanto, muitas vezes o que encontramos ao pesquisar o interior de alguém é um imenso vazio. Aí fica difícil atribuir a alguém assim algum valor. Só preço. E se ela não tiver a competência que lhe dê utilidade ou raridade, nem isso.

 

Buscando jogar mais luz sobre esse tema, penso em uma pergunta difícil até de ser formulada. Uma pergunta que perturba, mas que deve ser feita. Então, vamos a ela: afinal quem atribui desvalor a alguém descartado como se fosse um objeto? Quem o descartou ou o próprio descartado? Sabemos que pessoas não são coisas, portanto não devem ser tratadas como tal, mas é importante lembrar que também não devem comportar-se como se fossem. Atribuir-se valor e fazer jus a ele dá à pessoa uma qualidade que é só sua, que é demasiadamente humana e que os objetos nunca terão: dignidade.

 

Revisitando a galeria de pessoas que passaram por minha vida – e não foram poucas –, encontro muitas que eu procurei por sua utilidade, mas que deixaram suas marcas, para o bem ou para o mal. Gostaria de falar de duas: Vilmar (nome fictício) e Seu Manoel (nome verdadeiro). O Vilmar é um profissional que realiza um trabalho complementar ao meu na área de educação. Nossas competências, somadas, nos dariam grande vantagem competitiva e poderíamos fazer bons trabalhos juntos. Estava animado com a parceria, mas esse ânimo não durou mais do que dois ou três encontros, pois rapidamente percebi que seus valores não combinavam com os meus. Ele coloca o resultado acima das questões éticas, e isso não combina com meu estilo. É claro que a parceria nem começou. Sim, ele era útil para mim, mas eu o descartei por seus valores. Ou pela falta deles.

 

Seu Manoel é um piauiense migrado para São Paulo em busca de trabalho e de oportunidade, e aqui ele se transformou em mestre de obras e da vida. Eu o contratei para reformar um apartamento e esperava dele o que se espera de um operário: eficiência e respeito aos prazos. Mas recebi muito mais, coisas como comprometimento, interesse sincero com a qualidade e com as melhores soluções, vigilância do trabalho dos outros fornecedores, confiança, respeito, amizade. Sim, eu e o Seu Manoel viramos amigos!

 

Meu apartamento ficou pronto, o serviço dele terminou e esgotou sua utilidade. Porém, ficou sua dignidade, seu sorriso fácil, seus comentários pertinentes, seus valores humanos. Estes, aliás, pude perceber também em sua família ao conhecer sua companheira de toda a vida, seu filho advogado, sua filha promotora de justiça. Seu Manoel é um exemplo de alguém que nunca é descartado, ainda que seu trabalho chegue ao fim.

 

Em resumo, todos nós podemos escolher como percorrer a vida. Há o atalho do preço, e há caminho do valor.

com gente

 

 

Fonte: livro “Com gente é diferente” de Eugenio Mussak – Integrare Editora

Saiba mais sobre o livro!

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