O reizinho da família. (por Maria Tereza Maldonado)

Ana Cláudia desabafa: “Não agüento mais meu filho! Agora me arrependo de tê-lo criado tão cheio de vontades. Primeiro filho, primeiro neto dos dois lados, as famílias achando tudo o que ele fazia uma gracinha. Parei de trabalhar para ficar totalmente disponível. Moral da história: o reizinho é um tirano. Faz cenas horríveis quando é contrariado. Brigo com ele, grito, mas não adianta”.

Essa é a queixa de pais que criaram os filhos na base da lei do desejo, e não da lei do consenso. O filho cresce achando-se no direito de sempre ocupar o primeiro lugar e pensando que os outros são seus súditos, que existem para satisfazer seus desejos. Não desenvolve a capacidade de perceber as necessidades dos outros e respeitá-los; não suporta a frustração e não consegue esperar. Por isso, não é capaz de construir um bom convívio, regido pela lei do consenso: dar um pouco do que cada um quer, para que todos tenham vez.

A crescente exigência do reizinho torna os familiares frustrados e enraivecidos; passam a brigar e a reclamar da criança solicitadora, insistente, insuportável. O clima do convívio fica difícil e a criança acaba se sentindo rejeitada e infeliz.

A melhor maneira de prevenir essa situação é dar à criança, desde pequena, a noção de que ela é importante, mas não é a única pessoa no mundo que tem o direito de ser atendida. Os outros têm o mesmo direito. Essa é a base da relação de troca, do dar-e-receber que permite o desenvolvimento da bondade, da gentileza e da tolerância. Dizer “Agora não”, “Já li essa história três vezes para você, agora chega” são frases que provocam frustrações necessárias, dentro da realidade de que nem tudo acontece na hora em que a gente quer ou do jeito que desejamos. Desenvolver a consideração pelos outros e por si mesmo conduz ao equilíbrio e a maiores possibilidades de satisfação. A capacidade de esperar é a base do bom planejamento; a capacidade de tolerar frustrações é a base da aprendizagem, pois é preciso persistir e suportar os erros até adquirir o conhecimento ou a habilidade de fazer o que nos propomos.

O que leva os familiares a tratar a criança como reizinho? Comumente, os sentimentos de pena e de culpa (porque a criança é adotada, ou nasceu doente, ou os pais se separaram, ou a mãe trabalha o dia inteiro etc.) criam a necessidade de compensá-la realizando a maioria dos seus desejos. Os outros motivos são: pensar que vai conquistar o amor do filho fazendo tudo o que ele quer; ter passado por privações ou ter se sentido pouco atendido, dando ao filho tudo o que gostaria de ter recebido; achar que ser bom pai ou boa mãe é atender a todos os pedidos dos filhos.

No entanto, é bom lembrar que essa conduta é prejudicial para o filho. O amor envolve não somente a atenção e o atendimento às necessidades da criança, mas também o preparo para que ela viva no mundo com os outros.

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Fonte: livro “Cá entre nós: na intimidade das famílias”, de Maria Tereza Maldonado – Integrare Editora

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