O prazer de realizar sozinho

É lógico que a mãe vai executar todas as pequenas tarefas mais rapidamente que o filho. Mas ela deve ter paciência e tolerância para não apressar a criança, que tem seu ritmo próprio. O que a mãe pode fazer é adequar o tempo da criança, não permitindo que ela não o desperdice demorando – o que estimula a desistência. Além disso, a persistência não é uma característica infantil muito comum.

Cada criança tem o seu ritmo. Umas são mais concentradas

que outras e gostam de ver o seu trabalho pronto. Outras querem

ver logo o resultado, sem paciência. Estas precisam de

maior atenção dos pais para que aprendam a ter prazer em

cada etapa realizada.

            Crianças têm muito mais prazer durante a realização de um trabalho do que ao vê-lo pronto. É por isso que, depois de empilhar várias caixinhas, imediatamente derrubam tudo e co meçam de novo. Gastam muito mais tempo empilhando do que admirando o trabalho.

Se, por outro lado, a mãe atropelar a criança, pode transmitir-lhe a sensação de que ela é incapaz. A extrema (e inadequada) solicitude da mãe estimula o filho a aleijar seus braços, como se fosse impotente. Já dizia o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, no livro Minha querida mamãe: “Supermães geram paralíticos e débeis mentais. Sem uso, o cérebro pára”.

Além de diminuir a autoestima, tanta dedicação maternal leva a criança a deslocar a sensação do prazer, que seria obtida ao realizar algo, para a do mero receber. Não é à toa que ela passa a ser uma criança sempre pedindo (seja o que for), pois o que importa é ganhar tudo (pronto). Quando não está ganhando nada, encontra uma maneira de pedir algo. Ocorre que a criança está confundindo a alegria de saciar a vontade de ganhar um brinquedo com a felicidade de brincar com ele.

Nenhuma criança nasce folgada, ela aprende a ser. A indolência

constante não é natural, mas resultado da difi culdade de

realizar seus desejos por si mesma.

A criança só pode ser considerada folgada quando conhece suas responsabilidades e não as cumpre. A responsabilidade é conseqü.ncia da confiança que os pais depositam no filho para a realização de algo que lhe cabe naturalmente. Estes não só devem reconhecer a capacidade do filho de desempenhar aquela tarefa, como também passar a contra com a cooperação da criança. Esta, por sua vez, incorpora a tarefa como algo que lhe cabe a partir daquele momento.

Um exemplo bastante comum: gostar de comer. Se a criança come porque sente fome, e o faz sozinha por ter o prazer de pegar os talheres, em pouco tempo ela será capaz de responsabilizar-se por comer sozinha o que tiver no prato. Não estranhe tal atitude, mas também não estimule o fato de a criança brincar diante da comida, esparramar tudo pelo chão, usar os talheres como brinquedos. A partir dessas experiências, se for educada para comer, com o tempo ela poderá organizar-se sozinha.

No entanto, se a criança come para agradar a mamãe, o não-comer passa a ser uma maneira de castigá-la. É clássico a mãe brincar: “Olha o aviãozinho” e, ploft!, enfiar a comida na boca da criança. Nesse caso, comer deixou de ser um ato de sua responsabilidade e se transforma em uma arma para arrancar outros benefícios da mãe.

Ninguém precisa limpar o prato. A criança come o que acha gostoso, não necessariamente o que a mãe considera mais nutritivo. Cabe à mãe preparar um jeito gostoso de oferecer os alimentos nutritivos.

Mais um exemplo: escovar os dentes. Naturalmente, a criança gosta de imitar os adultos. Se a mãe, o pai ou o adulto responsável escovar os dentes com prazer, a criança vai pensar que também terá prazer com esse ato. Ela já deve escová-los, antes mesmo de ser bem-sucedida. Quanto mais a mãe permitir que o filho brinque com a escova, e assumir apenas a tarefa de finalizar a limpeza dos dentes, tanto mais ele terá prazer em fazer isso. Não há nada mais lúdico para a criança do que brincar com a água e a boca.

Escovar os dentes pode virar um castigo quando o adulto não tem paciência de esperar o fim da brincadeira. Pior: usa a escova como uma arma carregada de balas (a pasta de dente), que invade intempestivamente a boca da criança, fazendo movimentos furiosos. Essa prática, muito comum nas mães apressadas de hoje em dia, acaba agredindo a criança. Se a mãe aguardar enquanto o filho escova e complementar seu trabalho com prazer (como se estivesse fazendo um cafuné), o hábito será incorporado à vida da criança como algo bem agradável.

Educar uma criança é também ensiná-la a administrar o seu tempo para cada atividade. Fazer algo, mesmo de que não goste, ou seja, fazer por obrigação, por dever, é algo que a criança precisa também aprender.

  

Fonte: livro “Disciplina – Limite na medida certa” de Içami Tiba – Integrare Editora

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