Educação: o começo de tudo

novembro 7, 2012

Os sistemas de ensino de um país podem ser comparados a pirâmides, com uma base larga, na qual se situa o grau fundamental; a seguir, um modulo intermediário, que se estreita e no qual se desenvolve o grau médio (a junção de ambos os graus resulta na chamada educação básica) e, no ápice, o grau superior, com suas faculdades e universidades, em que o estreitamento tende a se acentuar. Num país desenvolvido ou nos emergentes, a base deve acolher todas as crianças entre seis e quinze anos de idade, não apenas proporcionando‐lhes matrículas nas escolas, mas também assegurando que todas (ou pelos menos a sua maciça maioria) possam completar o 9º ano com sucesso. Aqui no Brasil, conseguiu‐se, na passagem do século XX para o XXI, criar as vagas necessárias ao completo atendimento das crianças de 6 e 7 anos, o que representa um importante avanço nas políticas públicas. O que falta, e talvez seja isso o mais importante, é dar qualidade a essa primeira escolaridade aberta a todo o povo, eis que já se pratica entre nós a universalização desse grau de ensino (exigida, aliás, pela Constituição Federal).

Qualidade, nesse caso, significa, de um lado, meios para manter todos os matriculados da série inicial cursando as demais séries até a última, e, de outro, pertinência na organização escolar (prédio, equipamentos, planos pedagógicos realistas e factíveis, didáticas modernas e competentes para assegurar sucesso no processo de ensino e aprendizagem, professores bem capacitados e produtivos) em relação aos vetores da modernidade, às aspirações futuras da sociedade brasileira, aos rumos do desenvolvimento nacional e às necessidades individuais do educando.

O grau fundamental, base da pirâmide, é o mais importante momento da vida escolar de um povo. Isto não só porque a maioria da população apenas disporá dele como educação formal – pois constitucionalmente é o único obrigatório e universal – como também porque o convívio com o progresso tecnológico bem como a formação cidadã dependerão inteiramente do bom aproveitamento pelos alunos da qualidade desse grau de ensino.

Nos termos em que se encontra, hoje, com uma escandalosa incapacidade de alfabetizar seus alunos ainda na primeira série e com esse equívoco pedagógico de apenas valorizar a aprendizagem em desfavor do ensino propriamente dito, o que vem resultando em alguns sistemas numa – repito – condenável aprovação automática de alunos semialfabetizados, a escola fundamental brasileira tem fracassado em seus intuitos. Em vez de preparar a população para os desafios culturais, econômicos e políticos do futuro (entendam‐se políticos como ação cidadã, sem vínculos obrigatórios com partidos ou ideologias), a escola fabrica contingentes cada vez mais numerosos de analfabetos funcionais, aqueles que passam pela escola sem nada aprender.

Este é o maior problema da atual crise educacional, como tenho insistido: uma escola que não ensina, não estimula o conhecimento e não forma adequadamente – como provam estatisticamente as avaliações nacionais e estrangeiras sobre os resultados obtidos em provas do MEC (Brasil e Enem), e outras, como o Pisa, patrocinado pela OCDE ou pela Unesco. Ademais de prejudicar essa maciça maioria de brasileiros que só poderá contar com o diploma de ensino fundamental para o enfrentamento de uma vida cada vez mais competitiva e mais complexa, ainda o reflexo dessa educação manca e insatisfatória vai bater nos graus seguintes de ensino (o médio e o superior), cujos níveis de qualidade caem incessantemente, dadas as insuficiências portadas pelos que terminaram o fundamental, sem saber os fundamentos de coisa alguma.

Para salvar a qualidade da educação brasileira não há necessidade de reformas mirabolantes, que incluam todos os graus de ensino: basta encontrar meios para qualificar o ensino fundamental e fazer dele o que a Unesco denomina de um “ensino pertinente”.

Fonte: trecho do livro “Caminhos e Descaminhos da Educação Brasileira” de Paulo Nathanael Pereira de Souza – Integrare Editora

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