Não quero ser uma cópia!

Afinal, de onde surgem os estereótipos? Eles são, necessariamente, ruins? Como fazer para evitar que os estereótipos se transformem em caricaturas que enquadram as pessoas e as condenam a viver um papel que não escolheram e que sequer aprovam? Como alguém pode manter a identidade e ser fiel às suas convicções e valores em uma sociedade que rotula as pessoas? Perguntas que incomodam, principalmente porque não têm respostas muito convincentes.

O médico francês Jacques Lacan, que passou da neurologia para a psiquiatria, e desta para a psicanálise, à qual acrescentou os saberes da linguística e da antropologia estrutural, apresentou conceitos que podem nos ajudar a entender um pouco o mistério dos estereótipos. Por exemplo: “Eu sou o que vejo refletido sobre mim nos olhos dos outros”. Ou ainda: “Com frequência, os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam”.

Pois é, parece que nós, humanos, fazemos a representação da realidade por meio da identidade com o grupo a que pertencemos. Realmente, não há como negar que o ser humano é um animal gregário, que depende do grupo para sobreviver física e emocionalmente. Quanto a isso, não resta dúvida. Como também não se pode discutir que os traços culturais servem para criar elementos de distinção grupal, e que eles conferem sensação de conforto e segurança.

Então está explicado porque criamos grupos e classificamos as pessoas, mas – sempre tem um mas – daí a aceitar que as pessoas sejam carimbadas e recebam atributos artificiais e se conformem com a situação, há uma imensa distância. Por isso eu gostei muito daquela propaganda na TV que propõe às pessoas uma reflexão, desafiando “Está na hora de você rever seus conceitos”. E faz a incômoda provocação depois de mostrar algumas cenas em que pessoas reagem mal a determinadas situações, como uma mulher branca casada com um negro, um homem mais velho com uma mulher mais nova, ou o contrário. Em um dos filmes, em um hall de entrada de um edifício de luxo, uma madame recomenda a outra mulher, vestida de maneira simples, que suba pelo elevador de serviço, para depois descobrir que se trata da nova moradora que acabara de comprar o apartamento de cobertura. Realmente, está na hora de rever os conceitos, porque quando eles são formatados por antecipação, são, na verdade, preconceitos.

Fonte: livro “Preciso dizer o que sinto”, de Eugenio Mussak – Integrare Editora

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