Os problemas de um déficit não diagnosticado

Apesar de muito inteligente, Fernando teve dificuldades na escrita e na aprendizagem durante a infância por ser disléxico. Apresentava desatenção em sala de aula, notas baixas, repetência e carregou o rótulo de ser indisciplinado. Na adolescência, como se não bastassem os problemas escolares, ainda estava com sobrepeso, o que reforçava sua não aceitação.

Com o apoio e o esforço dos pais, conseguiu sofridamente se formar em administração de empresas. Mas já havia internalizado um sentimento de menos-valia, de ser pouco inteligente. Aos 34 anos, solteiro, era um indivíduo desadaptado ao seu meio e com baixa autoestima. Para compensar, como mecanismo de defesa, adotou uma postura prepotente na vida: de dizer e agir (mesmo sentindo o contrário) como se fosse o melhor, o mais legal, o mais bonito, o que sabe tudo, o mais destemido de todos. Queria sempre ter a namorada mais bela e nunca achava a atual boa o bastante justamente por estar com alguém como ele.

Essa postura muito competitiva acabava gerando mais conflitos nos seus relacionamentos, sociais e afetivos, e por isso mesmo o fazia sofrer. Para complicar teve uma coletânea de relações afetivo-sexuais sem conseguir realizar um dos seus projetos que era o de constituir uma família. Seus relacionamentos não iam adiante.

Fernando chegou à terapia deprimido, trabalhando sob forte estresse e pressão. Não conseguia valorizar suas qualidades: ser brincalhão, perspicaz, alegre e muito afetivo com as pessoas. A reflexão sobre seu núcleo familiar revelou que seus pais não conseguiram perceber seus distúrbios na infância (por falta do conhecimento) e, consequentemente, não aceitaram a limitação do filho, o que favoreceu a construção da atitude de sofrente. A percepção de seu vício – negar a menos-valia e, em um orgulho prepotente, inviabilizar relações afetivas gratificantes – permitiu a ele desconstruir essa personagem e iniciar uma nova jornada existencial.

 

Fonte: trecho do livro “O sofrimento como vício – Entenda e supere essa dinâmica”, de Dirce Fátima Vieira e Maria Luiza Pires – Integrare Editora

Para mais informações sobre o tema, consulte o livro ou entre contato conosco.

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