A fé como justificativa para o sofrer

julho 15, 2011

Todas as religiões, de alguma forma, propõem uma conexão com o divino como algo natural e saudável para o equilíbrio humano. Os fiéis que creem nos dogmas e na existência de algo superior, ou mesmo na prática mística, testemunham suportar melhor as dificuldades e aceitar a morte com menor desespero.

No caso dos viciados em sofrimento, contudo, esses dogmas e crenças podem ser utilizados como justificativa para tal atitude. É o que se depreende da história de Marlene. Aos 40 anos, casada e com filhos, trouxe as queixas de ansiedade e de dores no estômago, mal-estar, insônia, perda de peso e depressão.

Já havia passado por vários médicos e tomado diversas medicações, sem apresentar melhora.

Marlene contou que levava uma vida regrada, com horários muito rígidos. Tinha um marido exigente. Em decorrência da educação familiar severa, sempre se colocava de forma submissa nos relacionamentos. Não conseguia sentir desejo sexual e não se permitia fazer aquilo que gostava. Sua rotina não previa espaço para lazer. Passava o dia cuidando dos outros. Sua vida pessoal e social era restrita. Bastante religiosa, ela seguia fielmente os ensinamentos de sua fé e realizava trabalho voluntário na sua igreja. Em um primeiro momento, a religião lhe trouxe certo alívio e explicação para o seu sofrimento. Mas com o passar do tempo, sua doutrina religiosa foi inconscientemente utilizada como mais uma maneira de se martirizar.

Complementava, assim, sua personagem de ser sofrente, justificando seus tormentos.

A certa altura, porém, ela foi encaminhada à psicoterapia. Nesse processo, descobriu, entre outras coisas, que o sofrimento estava presente desde sua infância, vivida em uma família desorganizada e frágil. Ao tomar consciência disso, compreendeu que lidava com sua religião de modo a alimentar seu sofrimento.

Por exemplo, muitas vezes, já exausta pelos afazeres de mãe e esposa, era procurada pela comunidade religiosa para ajudar alguém e trabalhar naquele ofício. Não conseguia dizer não. Pela sua crença, não poderia deixar de se sacrificar. E assim se desrespeitava.Também pela sua religião, o sexo era para procriação, daí não se sentia bem nas relações sexuais, porque não podia gostar de sexo. Como era viciada em sofrimento, não conseguia sentir prazer na vida. Nesse exemplo, procuramos mostrar como uma pessoa pode utilizar uma crença religiosa como a “droga” para o seu vício.

 

 

Fonte: Trecho do livro “O sofrimento como vicio – Entenda e Supere essa dinâmica”, de Dirce Fátima Vieira e Maria Luiza Pires


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