Jovem para sempre! Geração Y x Veteranos

O ninho da águia

Mais uma vez a águia chega com uma presa para alimentar seus filhotes. São tempos difíceis, o clima inconstante está afastando a caça, os pequenos animais agora permanecem mais tempo em seus abrigos, fugindo não apenas dos predadores, mas também do calor sufocante que destrói boa parte dos alimentos. Dessa vez, a águia teve dificuldades para encontrar um bom lugar para montar seu ninho. Os penhascos mais altos e próximos dos alimentos foram ocupados rapidamente, obrigando-a a ser ainda mais estratégica e persistente para criar um abrigo que acomodasse seus três filhotes.

No começo, o ninho estava bastante seguro e confortável, e até mesmo a águia encontrava ali um bom lugar para repousar. Contudo, com o crescimento dos filhotes, o ninho começou a ficar pequeno e tornou‑se comum a águia encontrá‑los brigando entre si, muitas vezes com feridas provocadas pelas bicadas mútuas. O tempo já estava dando seus sinais, e a águia sabia que estava chegando o momento de submeter seus filhotes ao ritual que significaria a continuidade de sua família. Seria o momento do primeiro grande voo.

Num dia ensolarado a águia novamente se prepara para caçar seu alimento, mas antes olha diretamente para cada um de seus filhotes e, em um rápido movimento, expulsa- os do ninho atirando‑os pelo penhasco. Os instantes seguintes são tomados por uma tempestade de sentimentos contraditórios e confusos. Os filhotes, que até aquele momento conheceram apenas a proteção e os cuidados da mãe, estão em uma queda vertiginosa, com o vento forte espancando seu corpo.

Nada, até aquele momento, demonstrava que a águia tomaria uma atitude tão radical. Para os filhotes, a sensação de rejeição e perplexidade se confundia com o medo e a angústia. Era a primeira vez que cada um deles experimentava uma realidade diferente e, julgando pela violência do que estavam sentindo, a vida fora do ninho era absurdamente desconfortável e agressiva.

Qualquer um dos filhotes, naquele momento, teria o direito de questionar por qual razão a águia os havia trazido ao mundo – afinal, não deixa de parecer sádico dar a vida a um ser e depois atirá‑lo para a morte certa na queda de um penhasco.

Durante a queda cada um procura em si mesmo algum recurso que possa eliminar o desconforto absurdo por que está passando. Gritar chamando pela águia é a primeira alternativa, mas demonstra não ter efeito algum. Agitar as pequenas garras, que muitas vezes foram fundamentais na disputa do alimento com os irmãos, não parece ser eficaz contra o vento. Além disso, enquanto cada filhote rodopia sem controle, um breve pensamento de acusação culpava a águia pela atitude insana.

Após infinitos segundos, uma força instintiva faz que cada filhote abra suas asas – descobrindo, assim, que podem controlar aquela situação sustentando seu corpo com a ajuda da velocidade que alcançaram durante a queda. O momento é único, eles ainda estão um pouco assustados com a súbita parada no ar. Enquanto voam, procuram entender o que está acontecendo e logo percebem que sempre puderam voar, apenas não sabiam disto.

Depois de alguns momentos de voo, percebem a águia voando atrás deles. Ela estava totalmente vigilante, cuidando para que a experiência fosse boa e sem acidentes irreparáveis. Ela se mostrou exatamente no momento em que os filhotes já estavam dominando a técnica de voo e,  sem perder tempo, fez uma manobra no ar, mergulhando em direção a um pequeno roedor. Com as garras prendeu o pequeno animal e em seguida, diferentemente do que sempre fazia, comeu a presa.

Tudo ficou claro. A partir de agora, cada filhote deveria caçar o próprio alimento.

E não foi só isso que mudou…

Quando os filhotes começam a voar de volta ao ninho, percebem o enorme esforço necessário para chegar até ele, como nunca antes tinham feito. Ao chegar ao alto do penhasco, notam

que estão diferentes – com a abertura das asas, os músculos ficaram maiores e mais fortes – e já não cabem no ninho, por isso terão também de procurar um novo abrigo.

Aquela queda foi a primeira, a única verdadeira e sem dúvida a mais importante na vida dos filhotes. Nada mais seria igual depois dessa experiência. As lembranças do ninho da águia estarão sempre presentes e serão uma referência constante para a construção de seus próprios ninhos.


Atualmente muitos jovens relutam em “saltar” para sua independência, pois estão acostumados com o padrão de vida que seus pais proporcionam. O ninho está sempre confortável – cada vez maior e mais adequado às suas expectativas –, e os pais desenvolveram um comportamento mais próximo, mais parecido com o de um amigo, e essa atitude é um obstáculo para impulsionar o movimento que simboliza o salto do penhasco. É muito comum encontrar pais que nem querem considerar essa possibilidade.

Para as gerações veteranas (X e babyboomers), é um desafio enorme acreditar no potencial de “voo” dos mais jovens. As motivações são variadas e paradoxais, mesclando argumentos que remetem a sentimentos de amor e cuidado com a vida do jovem e críticas pela falta de foco e compromisso com as próprias expectativas, levando ao julgamento de imaturidade para se aproximar do penhasco e ousar fazer o “voo”.

Fonte: trecho do livro “Geração Y – Ser potencial ou ser talento? Faça por merecer”, de Sidnei Oliveira

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