Polvo (mulher) e cobra (homem) vão ao banheiro

Quando adolescente, eu gostava de espiar os banheiros das mulheres. Meus pais ficavam zangados comigo e me chamavam de sem-vergonha. O que eles não sabiam é que eu já era um “pesquisador comportamental”.

Vou fazer um relato do que aprendi estando atento a tudo o que se passava nos banheiros masculinos e femininos, acrescentando algumas situações “extrabanheiro” para tornar minhas comparações mais pitorescas.

As diferenças entre cobras (homens) e polvos (mulheres) já são perceptíveis antes mesmo de eles entrarem no banheiro. A caminho, a polvo anuncia em alto e bom som o seu estado fisiológico por onde vai passando: Ah, estou tão apertada! O que sempre me intrigou era para quem ela estaria dizendo isso, já que ninguém lhe perguntara nada. Então, outra polvo, conhecida da primeira ou não, capta a mensagem e logo corresponde: Eu também! E lá vão as duas ao banheiro batendo o maior papo.

Ninguém consegue falar com um cobra que está a caminho do banheiro com passos largos e apressados, a cara fechada num ar agoniado e solene. Quem quiser lhe perguntar algo que dê uns toques em seu ombro. Então, o cobra para e ouve, já que andar, controlar a bexiga e co nversar são coisas demais para fazer ao mesmo tempo.

No banheiro, a polvo se fecha no reservado e despe quase metade do corpo para sentar-se no vaso sanitário. Não importa o tipo de serviço a ser feito – gasoso, líquido ou sólido -, ela sempre verifica suas roupas íntimas. É por causa da menstruação, um acontecimento tão importante que usa vários verbos para anunciá-lo: “veio, chegou”, “desceu” etc. Quando a menstruação chega, a polvo faz uma caretinha e diz: Xii, veio! A caretinha é porque a menstruação incomoda. Mas o incômodo seria ainda pior se era para ter “vindo” e não “veio”. Realmente, é mais do que apropriado chamar a menstruação de incômodo quando “vem” e ainda mais quando “deveria ter vindo” e “não veio”…

No caso de “ter vindo” e a polvo estar sem absorvente higiênico, ela entra logo em ação. Olha para cima e, sem ao menos saber quem está no banheiro, pergunta: Alguém tem um absorvente pra me emprestar? Sempre existe aquela polvo superorganizada e metódica, que coloca três absorventes na bolsa ao sair de casa. Nada me surpreenderá!, pensa ela. Ela empresta o absorvente sem pestanejar. Aliás, ela não empresta, ela dá. Nunca polvo alguma cobrar empréstimo: Você me devolve o absorvente que lhe emprestei ontem? 


Já um cobra faria uma conta de débito/crédito e pediria o absorvente de volta mesmo que tivesse com ele. O que o cobra não entende é que as polvos se relacionam por meio de absorventes, tornando-se muito íntimas. A que empresta não pede de volta, pois sabe que, se precisar, pode pedir e, sem dúvida, a outra vai atendê-la. E, assim, acabam ficando elas por elas.

Esse tipo de solidariedade, comum entre polvos, não ocorre entre cobras. O cobra que entra primeiro no banheiro vai ao último urinol. O que chega depois vai ao primeiro urinol, guardando respeitável distância do outro. Para fazer seu serviço, o cobra se despe somente na parte que lhe interessa e não necessita da ajuda de ninguém. Em minhas observações, nunca vi um cobra pedir ajuda para nada, tampouco para urinar – muito menos vi alguém oferecendo-se para ajudar… Como seria se cobra também menstruasse? Talvez usasse “bandagens” improvisadas de papel higiênico só para não pedir ajuda nem ficar devendo nada a ninguém.

Urinar é gesto que demonstra autossuficiência, independência e poder. É também um ato lúdico, já que o cobra pode dirigir o jato para onde quiser, até mesmo para fazer as bolinhas de naftalina darem voltinhas… Sem falar no barulho que ele adora fazer, alardeando seu urinar como se fosse uma torneira de jato forte de pia de ralo fechado.

Resumindo: a polvo diz o que está sentindo, pede e oferece ajuda com a maior naturalidade, enquanto o cobra quer resolver tudo sozinho. As coisas funcionam assim também fora do banheiro. Quando se perde no trânsito, por exemplo, o cobra deixa a polvo à beira de um ataque de nervos. Ele dá sete voltas no mesmo quarteirão, mas não se submete a pedir ajuda a ninguém. Fica irritado, reclama da falta de sinalização, manda as crianças calarem a boca e se recusa a ouvir os palpites da polvo, quer resolver tudo sozinho.

Se é ela quem está dirigindo (o que, naturalmente, só acontece caso seu cobra esteja doente ou inválido), não hesita em chamar logo o primeiro pedestre que cruza seu caminho: Ei, moço! Então a polvo faz a pergunta e repete a resposta recebida para certificar-se de que entendeu tudo direito. Agora quem passa nervoso é o cobra, pois a polvo fica perguntando as coisas para qualquer um…

Voltando à intimidade do banheiro, o cobra não se acanha de soltar sonoros avisos gasosos de que os sólidos estão chegando. Mas a polvo, que tanto fala, mesmo fechada no reservado, morre de vergonha de fazer “pum”. Até para soltar uns “punzinhos” ela se atrapalha toda…

Ao sair do reservado, a polvo avança em direção à pia e ao espelho, mesmo que estejam ocupados. Sem fazer cerimônia, ela desliza um tentáculo por cima da pia para atingir a torneira. Nesse momento, a polvo que chegou primeiro se inclina de modo a dar espaço à outra, mas sem deixar de ocupar o seu precioso espelho. Então a outra vai se acomodando e, de repente, as duas ocupam o mesmo lugar simultaneamente. As polvos parecem ignorar a lei da física, que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Pelo espelho, a polvo que lava tentáculos olha para a outra, que passa batom nos lábios. Esta oferece o batom àquela (que, por sua vez, o aceita) e ainda comenta: Puxa, como ficou bom em você! Pode ficar com o batom, tenho outro em casa…

Já o cobra, quando encontra o lavatório ocupado, guarda cinco passos de distância, vira-se de lado para não importunar o outro e fica contando os azulejos. Dessa foram, ele respeita o limite invisível que existe entre dois cobras estranhos. O que chega não invade o território do outro, ou pode sair briga. Um cobra só invade o território do outro se estiver embriagado ou tiver “maus costumes”. O que sofre a invasão reage imediatamente, virando-se contra o intruso e assumindo a posição de dono do pedaço. Qual é a sua, meu?, diz ele, ameaçando enfiar a mão no focinho do invasor. Focinho, sim, porque nessa hora o cobra vira bicho, um animal em defesa do seu território. Em outras palavras: as polvos não veem problema em se encostar uma na outra, trocar ou mesmo compartilhar o que estiverem usando. Elas têm prazer e entrosamento para ocupar o mesmo espaço, ainda que o lugar não comporte tantos tentáculos. Já os cobras marcam território, não invadem o do outro nem querem o seu invadido. Em caso de invasão, eles reagem violentamente.

Vejamos como isso funciona fora do banheiro – num banco de praça, por exemplo. Ali está sentada uma polvo, entretida com uma coisa qualquer, até que outra chega e toma assento sem a menor cerimônia. A polvo chegante já começa a falar, ao que a primeira corresponde agradavelmente. Pronto: em minutos. As duas se tornam velhas amigas. Aí, percebendo a chegada de uma terceira desconhecida polvo, sentam-se a meia nádega para dar espaço a ela. E esta, no meio das duas, entra no papo, como se estivesse nele desde o começo.

É pouco provável que um cobra se sente no banco em que outro já esteja. Mas, se isso acontecer, aquele que já estava sentado se levanta disfarçadamente e vai “ver as árvores”. Caso sejam conhecidos, os cobras compartilham o banco, mas não se encostam nem se tocam enquanto falam. Aliás, nem se veem, pois ambos ficam olhando para a frente, como se houvesse ali um alvo a ser estudado. O papo é assim: um cobra fala, o outro escuta. Não é incrível? As polvos não entendem como é possível falar um de cada vez – quer dizer, quando um fala, o outro escuta. Acham estranho quando dois cobras começam a falar ao mesmo tempo, que um diga para o outro: Fale você primeiro. Isso porque polvos falam e escutam ao mesmo tempo – e ainda reparam na quarta polvo, que acabou de passar.

Quando a polvo sai do banheiro, diz à outra: Gostei de você, apareça em casa! Basta uma “banheirada” para se tornarem amigas íntimas.

O que aconteceria com um cobra se, depois de uma “banheirada”, ele dissesse para o outro: “Gostei de você apareça em casa. Xii! Nem quero imaginar…

 Içami Tiba, em “Homem Cobra, Mulher Polvo – Divirta-se com as diferenças e seja muito mais feliz”

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One Response to Polvo (mulher) e cobra (homem) vão ao banheiro

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