Bate-papo com Içami Tiba

Psiquiatra especialista na relação entre pais e filhos acredita que é preciso reestabelecer a hierarquia e saber impor limites na base do diálogo

Os filhos de hoje dominam a linguagem digital com a mesma facilidade com  que aprendem uma segunda língua. Vão mais cedo para a escola, passam mais tempo em frente ao computador e, para eles, o tempo real também precisa funcionar para além do virtual: eu quero agora, eu tenho agora. A hierarquia, que há cinco ou seis décadas parecia tão clara, se perdeu. Estabelecer limites virou o maior desafio das famílias modernas. Como encontrar a fórmula ideal da educação? Rigidez afetividade = pai ideal? Na vida real, a matemática é mais complicada do que isso. Em entrevista à Revista, o psiquiatra Içami Tiba explica o que mudou e o que ainda precisa mudar na relação entre pai e filho.

O filho de ontem hoje é pai. Como ele cria o seu filho, hoje?

Existem duas diferenças primordiais: a tecnológica e a comportamental. Em relação à primeira, os filhos hoje aprendem o alfabeto digital como aprendem uma nova língua. É natural. Agora, é importante salientar é que foram os pais que desenvolveram toda essa tecnologia, que hoje eles presenteiam os filhos. Dão o computador, dão o videogame, o notebook… Em relação à mudança de comportamento, antigamente o comportamento padrão era que o pai de hoje tinha que obedecer ao seu pai e ponto final. Havia uma hierarquia. Hoje, isso não existe. O filho faz o que quer, tem vontade própria, não o que o pai quer. E aí os pais ainda deram a internet. Na frente do computador, ele pode tudo, é dono do mundo. Não existem regras ali.

Antigamente, os pais eram mais rígidos. De maneira geral, hoje os pais são mais relaxados na educação?

Antigamente, tinha o pai bravo, que mal conversava com o filho e chegava só na hora de resolver um problema, já na ignorância. Hoje, os pais que venceram na vida não querem que os filhos sofram o que eles sofreram na infância. Então, tendem a ser mais relaxados, a deixar os filhos mais soltos. Por outro lado, quem diz que não foi o sofrimento que fez com que eles vencessem? Antigamente, os casais tinham muitos filhos, uns oito. Dormiam todos no mesmo quarto. Se o cara não se esforçasse para sair dali, para conquistar seu espaço, ele ia ficar naquilo para sempre. Os pais de hoje acabaram com a meritocracia. O filho não precisa lutar para nada. E aí, quando alguma coisa encrenca com essa educação, eles querem voltar à educação que tiveram dos pais, a do tapa, do grito. Só que aí não adianta mais.

 Veja amanhã, a segunda parte desta entrevista

 Entrevista originalmente publicada no site do jornal Correio Braziliense: http://migre.me/37lHS

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